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Sociedade

São Bernardo de Lula e outros
é fracasso econômico e social

DANIEL LIMA - 06/04/2018

A prisão do são-bernardense mais notório do País, programada para esta sexta-feira mais que brava, é a coroação de um fracasso histórico da Capital Econômica da região no campo da política e da economia. Na economia porque a desigualdade social está longe de ter como motivação exclusiva um capitalismo deformado. Na política porque o modelo Made in ABC com forte viés de um sindicalismo socialista incursionou pelos desvãos da moralidade, da ética e da criminalidade administrativa nas mais variadas instituições. 

De outro lado, mas dentro do mesmo pacote, os chamados conservadores, à direita, mantiveram-se presos a interesses particulares cujo centro da meta é o enriquecimento material e o empoderamento social. E dão mostras claras de que não arredarão pé. Mandachuvas e mandachuvinhas à direita pretendem manter -- como os protagonistas de esquerda -- São Bernardo no cabresto das próprias vantagens e privilégios. 

O restante da região segue a mesma toada, claro. Todos contam com facilidades de frágil estrutura do Ministério Público Estadual e de um Judiciário muitas vezes alheio ao que se passa nesse território – como sentenciou o meritíssimo Jarbas Luiz dos Santos no caso demandado por um notório contraventor do mercado imobiliário. 

Insumos abundantes 

Matéria-prima aos mandachuvas e mandachuvinhas não falta. Afinal, São Bernardo conta com população de pobres e miseráveis equivalente a moradores de todas as classes sociais da vizinha São Caetano. São em números redondos 55 mil domicílios à margem da sociedade. Miseráveis e pobres de São Bernardo e da região como um todo dificilmente alcançarão postos de classe média baixa, classe média tradicional e, mais que tudo, de ricos. São párias da sociedade. 

Vou deixar Lulapralá, depois do Lulacá que criei em reportagens de capa da revista LivreMercado.  O Lulacá e o Lulalá destes dias tenebrosos para a esquerda já contam com narradores demais, à direita e à esquerda. Prefiro lembrar o que é São Bernardo nestes dias, reflexo de todos os dias do passado desde a industrialização que chegou sobre rodas automotivas. 

Nada menos que 19,8% das moradias de São Bernardo são habitadas por pobres e miseráveis. São 55.561 habitações de um total de 280.127. Esses dados são de 2017, conforme empresa especializada em potencial de consumo (Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini). Potencial de consumo é algo como o PIB de riqueza acumulada dos municípios brasileiros. 

O crescimento sem planejamento cerceou um figurino de desenvolvimento equilibrado tanto na ocupação espacial quanto na tessitura social. São Bernardo é no campo dos pobres e miseráveis um reflexo da região, que contabiliza 19,7% desse estrato social. 

O desastre de São Bernardo não pode ser desprezado e tampouco deixado de ser debitado em parte ao sindicalismo glorificado pela mídia imprevidente a partir da liderança de Lula da Silva ao final dos anos 1970. O modelo imposto nas fábricas de automóveis e autopeças, que se espalhou à força e sem critérios de razoabilidade por todos os demais segmentos industriais, deu com os burros nágua. 

Mudança de rumo 

A contrapartida louvável de democratização nas relações entre capital e trabalho esgotou-se nos primeiros tempos de autoritarismo sindical já com incursões partidárias. Após a consagração nacional do movimento, em pleno Regime Militar, o modelo virou uma bola de neve de arbitrariedades e excessos, mas principalmente de privilégios. 

A desindustrialização regional, portanto, também tem fortes raízes sindicais. Negar, como alguns veículos de comunicação negam, sequestrados por sindicalistas e por conveniências, além de ignorância, é estultice. Tanto quanto os estragos da abertura econômica seletiva do governo Fernando Henrique Cardoso. 

A diferença entre os desmandos sindicais e os estragos de FHC é que estes ressoaram no tempo com intensidade menos agressiva do que aqueles, que seguem a contemplar camadas de trabalhadores industriais em detrimento dos demais. 

Os dados sobre o mercado do trabalho na região são esclarecedores nesse sentido. A casta dos metalúrgicos conta com três divisões: das montadoras de veículos, das sistemistas e dos demais. São três categorias distantes entre si, mas privilegiadas em relação aos demais portadores de carteira de trabalho, quarta unidade formada por trabalhadores de diferentes atividades. 

Sem ramificação social 

Fossem menos corporativos e ideológicos e, cumprissem promessas de marqueteiros no sentido de atuar fora dos limites das fábricas com mais vigor e solidariedade, atuando para um desenvolvimento econômico e social equilibrado, os sindicalistas teriam contribuído para uma região diferente. Cada vez temos mais a cara econômica e social do Brasil. Querem prova maior do fracasso regional?

O exército de pobres e miseráveis de São Bernardo contava no ano passado com um portfólio de riqueza equivalente a 6,9% do total do Município, ante 17,1% da camada de ricos que ainda resistem. Como os ricos de São Bernardo não passam de 3,7% da população, num total de 10.500 domicílio, eis que temos o tamanho da desigualdade manifestada nos seguintes números: a média de dinheiro para gastar no ano passado entre os ricos era de R$ 352,238 mil por domicílio, enquanto a média dos excluídos sociais alcançava apenas R$ 26,9 mil. 

Na região como um todo, na soma de sete municípios, a diferença entre esses estratos sociais também é quilométrica. Os 184.499 domicílios ocupados por pobres e miseráveis da região no ano passado representavam em termos de acumulação de riqueza para consumo apenas 6,7% do total regional, contra 14,1% da camada dos ricos, que totalizava 29.984 domicílios. A média de riqueza dos ricos no ano passado registrava R$ 340 mil, ante R$ 26,5 mil dos pobres e miseráveis.  

Semelhante ao Brasil

É claro, como já ponderei, que não se deve atribuir a Lula da Silva e seus seguidores sindicais, e depois políticos, a exclusividade na geração de desigualdades econômicas e sociais na região. O Brasil é assim mesmo, conforme comprovam sociólogos consagrados. Entretanto, tudo poderia ser diferente na região –ainda desconhecida dos estudiosos destes tempos -- se sindicalistas e elites do outro lado do espectro ideológico fossem menos vorazes. O capitalismo conservador e o capitalismo sindical que se fundiram na região são metades da mesma laranja de aproveitadores.  

Convém lembrar (porque há sempre um e outro atravessador semântico a transformar em crime o que não passa de observação rápida para distinguir classes sociais) que não faço parte da corrente majoritária de esquerda que observa os ricos com enviesamento, mesmo sendo eles, muitos esquerdistas, também desse compartimento social. 

A perda de famílias de classe rica na região nas últimas décadas (em estudos que analisei neste espaço) também comprova o quanto estamos a pagar o preço de uma sociedade fragmentada entre capital e trabalho. Não custa repetir sempre e sempre que a mobilidade social da região está sobretudo no passado tanto quanto está no presente a consolidação do avanço de camadas de excluídos.  

Para completar, volto ao texto que produzi em 25 de outubro do ano passado (são tantos que uma escolha mesmo aleatória é facílima) para refrescar a memória sobre a desigualdade social em São Bernardo a bordo da desigualdade salarial. Leiam alguns parágrafos: 

 (...) A verdade é a seguinte: a vinculação história de suposto socialismo trabalhista e pretenso capitalismo privado gerou um monstro regional que se repete em algumas outras áreas do Estado que comportam o G-22, o grupo dos 20 maiores municípios paulistas (exceto a Capital) acrescidos de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, que completam o time da Província. (...) São Bernardo é campeã regional em desigualdade salarial. São Bernardo dominada pelo sindicalismo anunciado como adepto do socialismo e que tem na cadeia automobilística o principal núcleo de produção supera largamente os demais municípios quando se confronta a média salarial das atividades industriais, comerciais e de serviços dos mais de 700 mil trabalhadores com carteira assinada na região. (...). Não são dados circunstanciais. Trata-se de acúmulo histórico das atividades econômicas na região. É a sacramentação de uma mistura de livre iniciativa, que marca a ocupação econômica da região, sindicalismo de viés alardeadamente socialista e intervenção de municípios, Estado e União, principalmente.  

Mais desigualdade salarial 

 O desequilíbrio de salários em São Bernardo envolvendo atividades industriais, comerciais e de serviços é um atestado de condenação explícita das relações trabalhistas tão endeusadas. (...) O que a união de sindicalistas industriais e organizações empresariais principalmente de grande porte promoveram ao longo dos anos na região foi a construção de uma elite de trabalhadores. (...) .O festejado sindicalismo cidadão, que estaria voltado ao conjunto da sociedade, é uma patifaria retórica de lideranças trabalhistas que se converteram em patéticos agentes públicos eleitos por currais corporativos. Não é muito diferente o entoado capitalismo privado das montadoras, protegidíssimas pelo Estado. Inclusive com medidas provisórias agora desvendadas como fraudulentas. 

Mais desigualdade salarial 

 (...) A média salarial do setor industrial, fator específico do desbalanço interno de São Bernardo e também no enfrentamento regional, não especifica em separado o grupo restrito dos trabalhadores nas montadoras de veículos locais. Os dados não são divulgados oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Caso fossem, o buraco que separa indústria, comércio e serviço em São Bernardo e na região seria ainda mais profundo. Estudos recentes de órgãos vinculados a trabalhadores apontaram que a média salarial nas montadoras de São Bernardo supera a R$ 10 mil. Muito acima, portanto, da média industrial em geral. Os trabalhadores do setor industrial de São Bernardo recebiam em média, em dezembro de 2016 (últimos dados agregados do Ministério do Trabalho), exatamente 49,18% acima da média do setor de serviços e 58,65% dos comerciários. A média de vencimentos salariais dos industriários de São Bernardo é de R$ 5.552,25, contra R$ 2.821,67 do setor de serviços e R$ 2.657,78 dos comerciários. Estavam registrados 74.939 industriários, 44.813 comerciários e 108.706 trabalhadores em serviços em São Bernardo. Quando se comparam os salários do setor industrial de São Bernardo com os demais trabalhadores da indústria de transformação da região a diferença é extravagante. Menos em relação a São Caetano, que tem o peso da General Motors a contrabalançar em parte as montadoras concentradas na vizinha. O salário médio industrial em São Bernardo está 12,62% acima de São Caetano, 29,51% de Santo André, 28,77% de Mauá, 37,47% de Diadema, 43,89% de Ribeirão Pires e 53,24 de Rio Grande da Serra. 



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