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Esportes

Por que o Santo André caiu
e o São Caetano segue firme?

DANIEL LIMA - 12/03/2018

Vou tentar responder às duas perguntas do título com um poder de síntese de publicitário que não sou nem pretendo ser porque publicidade é uma arte para poucos quando se leva em conta para valer o poder de resumir o resumido e todos entenderem. 

A frase inaugural deste artigo é intencionalmente longa e sem uso de vírgulas porque as vírgulas só atrapalhariam o raciocínio. 

O Santo André caiu porque não se deu conta de que, além de organização tática, precisava de transpiração e força. 

E o São Caetano seguiu em frente porque descobriu que, além de transpiração e força com que já contava, não haveria futuro sem organização tática. 

Acho que não consegui uma frase publicitária, mas isso não se deve levar em conta. Sintetizar a campanha de uma ou mais equipes numa competição também é uma arte porque exige acompanhamento permanente dos jogos. 

Desafio a todos a consultarem os artigos que escrevi nesta temporada sobre o desempenho do São Caetano e do Santo André na Série A do Campeonato Paulista. Estão ali as digitais de observações conectadas aos dois resumos feitos acima. 

Dizer que imaginava o São Caetano entre os oito finalistas da competição seria exagero. O técnico Pintado foi um tiro certeiro da diretoria, embora não fosse o primeiro da lista. Deu sorte o São Caetano porque se trouxesse Péricles Chamusca ou Sérgio Guedes, os primeiros relacionados, o impacto não seria o mesmo. Tanto Guedes quanto Chamusca precisam de tempo para os resultados aparecerem. 

O São Caetano então lanterninha estava na UTI classificatória. Pintado é menos rebuscado intelectualmente, mas tem bom trânsito no ambiente interno do São Caetano. Vestiário tem peso fortíssimo nos resultados em campo. 

Falta de equilíbrio

Já o Santo André do técnico Sérgio Soares não soube manter o equilíbrio emocional na reta de chegada tenebrosa que se avizinhava e que acabou se transformando em reta de desespero. A escalação heterodoxa diante da Ferroviária, na rodada do meio de semana, quando até um empate poderia ser comemorado (até então, verdade seja dita, não se sabia exatamente o que um ponto significaria) deu a dimensão do estágio de descontrole que abateu a equipe. Tudo porque os jogadores não responderam em campo às necessidades impostas pelos adversários. 

Sérgio Soares tirou tudo o que poderia tirar do grupo dentro de campo. O problema é que a concepção do grupo sofreu forte viés de saudosismo, provavelmente da final do campeonato de 2010 diante do Santos. O Santo André não teve força física, intensidade, efetividade, para somar à estrutura tática logo definida um arranjo que empurrasse os adversários defesa adentro. Exagerou na dose de um classicismo futebolístico que não tem vez nem mesmo nas grandes equipes internacionais, todas dotadas de individualidades e, também, de expressividade física. 

Mudança radical 

Pintado chegou e botou o São Caetano para correr ainda mais, mas, principalmente, para raciocinar. Trocaram-se chutões, lançamentos constantes em profundidade e viradas de jogo decoradas pelos adversários, por posse de bola, passes progressivos, intensidade nos contragolpes. O time que empatou ontem com o Bragantino no Interior é formado basicamente de reservas, mas, vejam só, captou todos os ensinamentos do treinador. 

Não existe fórmula mágica para o sucesso no futebol. Variáveis costumam quebrar a espinha dorsal de quem imagina que o passado repetido é garantidor de triunfo futuro. Há pesos relativos que devem ser considerados.

O fato de ter disputado jogos ao longo de toda a temporada passada, quando, após a Série B do Paulista, participou da Copa Paulista, ajudou o São Caetano a se formatar para a Série A deste ano. Por mais que o então técnico da equipe, Luiz Carlos Martins, seja conservador e pouco evolutivo na organização tática do grupo, houve experimentos suficientes para avaliar as individualidades. 

O Santo André não cumpriu o mesmo roteiro e se deu mal porque depositou todas as fichas nas contratações, montando um time praticamente um mês antes da abertura do campeonato. Bem diferente do São Caetano, que trouxe um time inteiro de reforços, mas que leva a campo pelo menos metade dos titulares do ano passado.

Riscos nas contratações 

É impossível que contratações deem sempre certo. Não há estatísticas, mas uma parte considerável de reforços acaba fracassando. O Santo André apostou num time inteiro, praticamente, embora trouxesse de volta alguns atletas que já tinham vestido a camisa da equipe, mas em outras situações. O São Caetano correu menos risco na medida em que mesclou o que já dispunha com o que contratou. 

Tudo isso parece pouco, mas tem peso decisivo numa competição de apenas 12 rodadas e na qual os quatro grandes são cartas fora do baralho de qualquer susto de rebaixamento e uma meia dúzia tem calendário nacional que sustenta infraestrutura muito mais sólida. O Santo André era um dos candidatos naturais ao rebaixamento. Mais que o São Caetano e muito próximo ao Linense, o outro novo integrante da Série B. 



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