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Regionalidade

Provincianismo do Clube dos
Prefeitos supera todos os limites

DANIEL LIMA - 09/03/2018

O que vou analisar neste artigo é sobre algo tão patético, tão surrealista, tão isso e tão aquilo que parece uma anedota. Para que o leitor tenha a dimensão do quanto a cúpula do Clube dos Prefeitos do Grande ABC é provinciana, sugere-se um capricho especial de paciência. Não posso queimar os cartuchos resumindo uma história que exige certo molho especial para que a degustação recolha os sabores de um tempero indigesto, mas necessário. 

Para facilitar o entendimento, vou contrapor à manchete da matéria em questão, publicada na edição de quarta-feira do Diário do Grande ABC, algumas sugestões que retratariam com mais precisão, ou com precisão quase absoluta, o que se passou no noticiário. Vamos à manchete do Diário do Grande ABC:

 “Consórcio pleiteia recurso da Europa para central de trânsito”.

Agora vamos a algumas sugestões deste jornalista, as quais retratariam, sim, a notícia publicada:

 “Clube dos Prefeitos descobre que trânsito precisa ser monitorado”.

 “Clube dos Prefeitos cai de quatro e trafega na obviedade do trânsito”. 

 “Clube dos Prefeitos traz italianos e se encanta com obviedade”. 

 “Cai a ficha do Clube dos Prefeitos: trânsito é problema regional”. 

Anomia intelectual 

Poderia produzir uma dezena de manchetes da mesma concepção crítica, quando não sarcástica. Acho que as já expostas dizem tudo sobre o que se registrou na página do Diário do Grande ABC sem que, ao menos publicamente, alguém se manifestasse. 

A anomia intelectual na região rivaliza-se com outros tipos de anomia. Metaforicamente ou não. Somos uma região devastada intelectualmente. Uma sociedade que não pensa é uma sociedade morta. O que dizer então de uma sociedade que, além de não pensar, é submissa aos poderosos de plantão? 

O que tivemos naquela notícia foi um resumo resumidíssimo do estágio a que chegamos no debate sobre regionalidade numa composição de sete municípios com quase três milhões de habitantes e um potencial econômico que está na parte de cima da tabela dos 10 maiores PIBs do Brasil, quando se consideram áreas regionais. 

Vou reproduzir alguns trechos da matéria do Diário do Grande ABC para, em seguida, como se fosse necessário, apontar as barbaridades provincianas:

 O Consórcio Intermunicipal (...) trabalha para a instalação de um centro de gerenciamento de tráfego regional. A ideia é apresentar a proposta, até o fim do ano, à União Europeia, com o objetivo de conquistar financiamento para a instalação de câmeras de monitoramento e, posteriormente, a interligação semafórica, na expectativa de melhor a mobilidade urbana entre as sete cidades. (...) Anteriormente à indicação da equipe de Turim, a ideia do Consórcio era implantar sistema de sincronização regional semafórica: “Uma central de gerenciamento voltada para o trânsito será o primeiro grande passo que daremos e é efetivamente onde vamos focar, porque eles (executivos europeus) nos convenceram que, até para ter o sistema semafórico integrado, tem de ter o monitoramento, senão é utópico”, falou o presidente do Consórcio (...) Orlando Morando (...): “Não adianta os semáforos se comunicarem se a gente não tem informações do tráfego local nas diversas cidades”, completou. 

Cada vez pior 

O tom de descoberta da pólvora do prefeito dos prefeitos da região, o tucano Orlando Morando, presidente do Clube dos Prefeitos, diz tudo sobre o passado recente e o presente da instituição. O tempo passa e cada vez mais sentimos que a regionalidade não faz parte do léxico dos administradores públicos da região, sobretudo dos mais jovens. 

Orlando Morando e Paulinho Serra, que dirigem os dois principais municípios da região, eram pós-adolescentes quando se introduziu para valer muitos dos conceitos básicos de regionalidade, no começo dos anos 1990.

Houve coincidência história entre o lançamento da revista LivreMercado e a chegada ao palco político-administrativo regional do petista Celso Daniel, eleito pela primeira vez prefeito de Santo André em 1989. 

O que separava o discurso regionalista de Celso Daniel e as edições regionalistas deste jornalista é que o primeiro se preocupava com algumas atribuições dos gestores públicos, como enchentes, meio ambiente e outras, enquanto abri uma avenida sobre algo que transbordou em importância – o desenvolvimento econômico. Aliás, já nos anos 1980, na sucursal do Estadão, na região, tratava disso. 

Contemporaneidade complementar 

LivreMercado era visceralmente voltada à economia regional e às consequências sociais da desindustrialização latente nos primeiros anos de circulação. Depois, pioneira no jornalismo brasileiro, acrescentou e valorizou sobremaneira múltiplos vetores sociais. O Prêmio Desempenho, em várias categorias, expressava característica inédita. Em 15 anos foram entregues 1.718 troféus. Tudo com auditoria externa. Um modelo de evento.  

Estou voltando ao passado para reforçar a verdade de que o prefeito dos prefeitos Orlando Morando não conhece patavina de regionalidade no sentido mais abrangente da expressão. E confessa isso ao, somente agora, entender que a mobilidade urbana de Santo André depende o que se passa no entorno regional (e metropolitano também). A recíproca é verdadeira quando se trata de São Bernardo e dos demais municípios da Região Metropolitana. 

Um nó no trânsito em Piraporinha, em Diadema, reflete mais tarde na Avenida Barão de Mauá, em Mauá. São vasos comunicantes. A Avenida dos Estados não é tranqueira logística por acaso. Os veículos que circulam no território de Santo André têm origem de deslocamentos em outros municípios também.  

Escrevendo o que estou escrevendo neste artigo chego a uma conclusão auto condenatória. Poderá parecer aos leitores que esteja a derramar sabedoria quando, de fato, transporto para a virtualidade desta revista apenas obviedades. 

Próprio umbigo 

Só de imaginar que a Prefeitura de São Bernardo trabalhou os últimos anos olhando para o próprio umbigo do trânsito insuportável em que se meteu entre outras razões porque o mercado imobiliário é nocivo quando deixa de ser disciplinado, só de imaginar esse isolacionismo, acho que não estou longe da estupefação constrangida.

Que futuro tem o regionalismo desta Província quando um ex-deputado estadual convertido em prefeito e também em prefeito dos prefeitos vem a público para dizer que a terra é redonda, que o Corinthians é alvinegro, que o Pablo Vittar não é mulher e muito menos Pablo Escobar, que o São Paulo virou freguês do Palmeiras no Alliance Park e que o prefeito Paulinho Serra se embananou todo com o IPTU desta temporada? 

Então o chefe maior do Clube dos Prefeitos só entendeu agora (e está declaradamente expresso na reportagem do Diário do Grande ABC) que o monitoramento regional é a linha de partida para entender as razões diárias das improdutividades no sistema semafórico envolvendo as sete cidades? 

Está mais que justificado por que Orlando Morando achou que estava revolucionando a região quando decidiu plantar na Capital da República uma representação que já virou pó voltada para captar emendas parlamentares sem planejamento estratégico econômico regional como método de racionalidade e produtividade. 

Regredimos tanto, mas tanto, em regionalidade, que não é exagero dizer que vivemos espécie de Mobral institucional. Estão querendo inventar a roda, enquanto a economia regional marcha celeremente a novas derrapagens. 



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