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Imprensa

Quanto vale manchetíssima do
Diário com atraso de três meses?

DANIEL LIMA - 01/08/2014

Nesta quarta intervenção como ombudsman não autorizado dos veículos de comunicação da Província do Grande ABC resolvi fazer a pergunta que está no título mais como provocação, embora cimentadíssima na realidade dos fatos. Quanto vale a manchetíssima (ou seja, a manchete das manchetes de primeira página) do Diário do Grande ABC de 21 de julho último (“Argentina fica com 40% dos produtos exportados do ABC”) se praticamente três meses antes, esta revista digital publicou uma manchetíssima que tratava do mesmo assunto (“Argentinização agrava ainda mais quadro econômico da Província”)?

 

Por que o Diário do Grande ABC demorou tanto para sair do casulo do comodismo de uma informação tão importante e outros jornais da região praticamente ignoraram o assunto? Simples: porque a economia sempre foi tratada a pontapés pela mídia regional.

 

O provincianismo é a resposta a todas as eventuais questões explicativas. Um provincianismo de ramificação mais complexa. Escrever sobre economia, escrever qualificadamente sobre economia, tratar a economia com cuidado de zelar pelos fatos sem ter medo de prognosticar o futuro, não é para qualquer um. Mais que coragem, muito mais, é preciso ter conhecimento. E conhecimento da economia regional não é uma propaganda de 15 segundos na televisão. É uma programação imbatível de destacadíssima audiência.

 

Página interna melhor

 

Na verdade, a manchetíssima do Diário do Grande ABC daquele 21 de julho foi mal-ajambrada, em completo desacordo com a própria reportagem de página interna, de manchete mais apropriada e impactante (“Risco de calote argentino é ameaça às exportações”).

 

Não é preciso entrar em detalhes sobre a situação que vive a Argentina nestes dias, com ameaça de insolvência por conta de dívidas com credores decididos a não aceitarem calotes quase integrais. O enfoque utilizado na página interna do Diário do Grande ABC era, naquele contexto, muito mais importante que o simples enunciado de que os vizinhos ficam com 40% das exportações das montadoras da Província do Grande ABC. 

 

Tenho sérias duvidas sobre o montante da participação relativa das indústrias da Província no mercado argentino. O Diário do Grande ABC não dá sustentação técnica aos 40% projetados. Parece que preferiu a chutometria, dada a complexidade dos dados que permitiriam sustentação da métrica.

 

Uma tentativa de desvendar o mistério sobre os números relativos da indústria regional no mercado automotivo nacional foi realizada há mais de 10 anos pelo jornalista André Marcel de Lima para a revista LivreMercado, sob minha direção editorial. Chegou-se em torno de 20% naquele período.

 

Queda persistente

 

Registrava-se, segundo aquela análise, uma queda persistente ao longo dos anos. Talvez hoje a fatia regional seja menor. O mundo automotivo mudou, novos concorrentes disputam o bolso dos consumidores brasileiros enquanto, menos competitiva, a região tem se socorrido de benesses fiscais federais e de investimentos seletivos para melhorar a produtividade num ambiente em constante refrega, com sindicalistas em comissões e comitês de fábricas a mandarem mais que os donos dos negócios.

 

Embora excessivamente tardia e sofrivelmente burocrática, a manchetíssima de primeira página do Diário do Grande ABC sobre a crise argentina e as graves consequências à economia da região merece de zero a 10 uma nota cinco pelo esforço de reportagem. Uma reportagem que poderia ter avançado mais ao deixar a superfície da crise de exportação automotiva. De cada cinco veículos que o Brasil exporta, quatro são para a argentina. As autopeças também dependem demais do equilíbrio econômico platino. Tudo isso recomendaria uma força-tarefa dos melhores jornalistas do Diário para antecipar fatos que prometem sacudir nossas fronteiras. Uma situação delicadíssima à vista. 

 

Não causa surpresa alguma o Diário do Grande ABC tratar todos os assuntos, sejam quais forem as circunstâncias, como assuntos rotineiros. Da mesma forma que administradores públicos descuidados observam o desenrolar de denúncias sem mexer uma palha à contraposição de informações, procurando sempre o facilitarismo de frases feitas e de clichês, a maioria dos jornais subestima a demanda dos leitores.

 

Tratar a crise sobreposta que já se abate sobre a economia da Província, porque também o mercado nacional mergulhou em desdém ao consumo, como se nada de anormal ocorresse no front, é acreditar que alguém preparado para os 100 metros rasos está apto a enfrentar uma maratona.

 

A nota cinco, portanto, é uma generosidade.



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