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Meias Verdades

Omissão e saudação
aos grandes carrascos

DANIEL LIMA - 01/04/2003

As sete associações comerciais e industriais do Grande ABC divulgam no próximo fim de semana em convenção anual da Facesp (Federação das Associações Comerciais do Estado), em Águas de Lindóia, um estudo sobre os benefícios que a região oferece para indústrias e estabelecimentos comerciais e de serviços. O objetivo é mostrar que a fase da evasão industrial já passou e que agora o Grande ABC vive um novo momento econômico no processo de globalização.

Segundo Filipe dos Anjos Marques, presidente da Acid (Associação Comercial e Industrial de Diadema) e coordenador de promoções e assuntos institucionais das associações da região, é papel das entidades divulgar a importância da região, que responde atualmente por 12% de toda a arrecadação do ICMS no Estado. “Precisamos acabar de vez com a imagem negativa que foi criada pelos sindicatos. até porque os sindicados mudaram”, disse Marques.

Um dos principais itens do estudo que será apresentado pelas associações comerciais e industriais do Grande ABC em Águas de Lindóia aborda a união de esforços da região (em entidades como o Fórum da Cidadania e a Câmara Regional, além da união das próprias associações sob a coordenação de Wilson Ambrósio da Silva, ex-vice-presidente da Fapesp) com objetivo de atrair novos investimentos.

No mercado de varejo, a região ganha este ano a segunda filial do hipermercado Supercenter, da Wal Mart, o ABC Plaza Shopping (com inauguração marcada para setembro em Santo André) e as duas primeiras unidades do hipermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, em São Bernardo e São Caetano.

Segundo o presidente da Acid, os novos investimentos no varejo transformarão o Grande ABC num dos principais pólos estaduais de atração de consumidores.

O presidente do Conselho Superior da Acid (Associação Comercial e Industrial de Diadema) e coordenador do grupo de trabalho Articulação do Fórum da Cidadania do Grande ABC, Filipe dos Anjos Marques, está lançando a proposta de criação de um Plano Diretor Regional para o Grande ABC. Seu objetivo é criar condições para que o pequeno varejo da região concorra em pé de igualdade com as lojas de shoppings e as grandes redes.

O Plano Diretor consistiria de um projeto para prover os centros dos municípios da região com uma estrutura de equipamentos — para segurança, conforto e facilidade de acesso — de programas de marketing e de atrações culturais, para atrair os consumidores às lojas de rua aos domingos.

Para o secretário de Desenvolvimento Econômico e Emprego de Santo André, Nelson Tadeu Pereira, a idéia de um Plano Diretor não é novidade. “Já temos o Cidade Agradável”. O programa é composto pelo plano de cobertura do Calçadão Oliveira Lima e o de revitalização de Santa Terezinha.

O grupo de comércio da Câmara Regional do ABC discute hoje a criação da Zona Azul Regional (estacionamento rotativo) que será um dos temas integrantes do Plano Diretor Regional para o comércio. De acordo com o coordenador do grupo, Filipe dos Anjos Marques, o objetivo é incentivar os consumidores a frequentar o comércio de rua do Grande ABC. “Percebemos que a atual falta de infra-estrutura de estacionamento de rua acaba atraindo os consumidores para os shoppings e os grandes magazines”, disse Filipe.

O coordenador explicou que, com a criação da Zona Azul Regional, o estacionamento rotativo terá o mesmo critério de funcionamento em todas as sete cidades. “Creio que, com a padronização, conseguiremos manter um custo menor de manutenção do estacionamento rotativo, atraindo, dessa forma, o consumidor”, disse.

O controle da implementação de grandes empreendimentos na região, como forma de manter a competitividade no varejo, foi proposto na reunião ordinária do Conselho dos Municípios, realizada ontem na Prefeitura de Rio Grande da Serra. Os representantes do Sindicato do Comércio Varejista, do Sindicado dos Empregados do Comércio no ABC e a distrital do Grande ABC da Associação Paulista de Supermercados (Apas) propõem a criação de uma lei que proteja os pequenos comerciantes.

A intenção é fazer com que as prefeituras exijam um estudo de impacto socioeconômico das grandes empresas que pretendem se instalar em uma das sete cidades do Grande ABC. Uma das propostas é fazer com que as grandes empresas garantam que toda a mão-de-obra utilizada seja da região. Outro ponto levantado foi o comprometimento de elas realizarem um trabalho de transferência de tecnologia para os pequenos lojistas.

“Todas essas propostas são uma forma de garantir que os pequenos não morram”, disse o gerente de marketing do Sindicato do Comércio Varejista do ABC, Ricardo Fioravanti.

Para o presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema, Alberto Tossunian, o grande problema da falta de controle é o fato de as administrações públicas ficarem “deslumbradas” com os investimentos dos grandes empreendimentos. “A receita que eles geram não compensa o fechamento dos pequenos”.

O prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, tem dito que vai vetar qualquer lei protecionista que represente um obstáculo para a implementação de grandes empreendimentos.

O comércio varejista de pequeno porte do Grande ABC seguiu nos últimos 10 anos trajetória parecida com a do setor industrial — como se fossem irmãos siameses na desgraça do esvaziamento econômico da região. A realidade do varejo familiar da região não é diferente da de outras regiões metropolitanas, cuja massificação de consumo foi descoberta pelas grandes corporações nacionais e internacionais que tiram do ganho de escala a rentabilidade desejada.

A diferença é que o Grande ABC se comportou infantilmente. Primeiro, ao endeusar os grandes negócios que aportaram na região, quando a historiografia internacional já recomendava que se acendessem luzes vermelhas. Depois, ao buscar saídas simplórias, de baixo efeito resolutivo. Depois da porta arrombada da abertura do território comercial do Grande ABC, a tranca de condicionamentos se torna impotente.

A fase do triunfalismo a qualquer preço, anunciada com entusiasmo em agosto de 1997, foi apenas uma etapa da insensibilidade que caracterizou as entidades de classe, os comerciantes e principalmente os administradores públicos. Tudo sob os olhos acríticos da maior parte da Imprensa.

Não deixa de ser paradoxal a omissão — quando não o incentivo — dos gerenciadores públicos locais que, no campo macroeconômico, vomitavam críticas ao governo Fernando Henrique Cardoso pela abertura desnaturada, enquanto aqui, internamente, se lambuzavam em salamaleques para ter o grande capital nacional e multinacional e suas bandeiras varejistas enfeitando as principais avenidas.

As dificuldades para os gerenciadores públicos darem conta de desejada blindagem do Grande ABC contra o varejo de grande porte devem ser ponderadas. Seria preciso uma integração regional exemplar para que o conjunto dos municípios locais organizasse barricadas contra a invasão de supermercados e hipermercados. Ou melhor: para que estabelecessem paradigmas dotados de mecanismos para compartilhar os espaços comerciais entre grandes e pequenos sem transtornos socioeconômicos de maior monta.

Quem conhece um mínimo do Complexo de Gata Borralheira do Grande ABC sabe que um concerto legislativo em torno de um terciário balanceado não passa de devaneio. Uma das características de Gata Borralheira é o fato histórico de que os administradores públicos da região só jogam o jogo da integração — quando jogam — se não houver a menor possibilidade de uma das partes sair perdendo. Como definir a linha tênue entre vitória, empate e derrota nas questões geoeconômicas locais é medida tão complexa como juntar num elevador torcidas organizadas rivais sem provocar um grande frisson, o que se teve no Grande ABC foi o célebre cada-um-por-si-e-Deus-para-todos. Afinal, quem teria peito para desprezar investimentos de um supermercado sabendo que o Município vizinho oferecia incontáveis vantagens? Da mesma forma que receber montadoras de veículos dá status ao administrador público, recepcionar bandeiras prestigiadíssimas do comércio é considerado sinal de prestígio.

Entretanto, como se observa pela cronologia das declarações, não demorou muito para cair a ficha. Foi rápida a troca da euforia de avaliar os grandes investimentos comerciais multiplicadores de consumo pelo desencanto da realidade prática. Às corporações de porte avantajado o que interessa mesmo é olhar para os 2,3 milhões de cidadãos do Grande ABC como instigantes consumidores.

Se já não bastasse ao Grande ABC dos anos 90 — e principalmente depois do Plano Real e suas travessuras — o aperto do setor industrial destruidor de empregos, desertador de unidades e amplificador de investimentos tecnológicos desempregadores de mão-de-obra, o turbilhão no comércio varejista se constituiu em dose suplementar de complicações.

Não há números atualizados das consequências da invasão de grandes corporações comerciais no espaço de pequenos negócios familiares cada vez mais concorridos e que contam com o adicional de empreendedores egressos de indústrias demissionárias. O Sincomércio e o Sincovaga calcularam com base nas baixas de seus registros oficiais que seis mil micros e pequenos varejistas fecharam as portas do Plano Real, em 1994, até 2000.

Se o Grande ABC conseguiu amenizar a imagem de sindicalismo exageradamente anticapitalista, até porque é impossível ter discurso reivindicatório num quadro de enxugamento permanente de trabalhadores, por outro teve agravado o perfil comercial. A chegada de supermercados e hipermercados, bem como de shoppings, já alcançou ponto de saturação — como na maioria das regiões metropolitanas, igualmente devoradas pelo mesmo fenômeno.

Esse recuo evidente se explica não só pelo excesso de empreendimentos mas também pela queda da massa salarial de uma região que deixou de ter como principal fonte de renda a indústria sempre pagadora de bons salários. Excesso de oferta e demanda em baixa persistente ajudam a entender por que a competitividade do setor comercial na região é de extremo risco. Viveu-se no Grande ABC a perspectiva de ganhos generosos dos empreendimentos de porte, que por sua vez desprezaram os indicadores de relaxamento econômico. Já há algum tempo chegou a hora de acertar as contas. Não faltam logomarcas de prestígio que sofrem as consequências.

A proposta de um Plano Diretor Regional, um ano depois do anunciado manifesto otimista das associações comerciais, também teria chegado tarde, mas não inútil. Há muito tempo não se ouve falar no assunto. Até porque, os pequenos e médios empreendedores comerciais da região correm atrás de compromissos diários.

Não seria, evidentemente, um acordo de unificação da Zona Azul que ensinaria o caminho das pedras da recuperação. Mas nem essa novidade saiu do plano de intenções. As associações comerciais e industriais da região só se dão as mãos em eventos circunstanciais. Faltam-lhes, como de resto nas demais entidades congêneres, executivos contratados para tarefas específicas. É um eterno engano atirar sobre os ombros de diretores não remunerados e metidos em negócios próprios a função operacional das entidades.

No Grande ABC a situação institucional agrava-se na medida em que o território de 840 quilômetros quadrados reúne sete gestores públicos diferentes, elementos-chave em qualquer debate sobre a necessidade de revitalizar o setor comercial e de serviços.

Sem preconceber a organização do espaço comercial regional quando as grandes redes varejistas descobriram que 2,3 milhões de habitantes são um filão importantíssimo às receitas, o Grande ABC simplesmente assinou o atestado de óbito da mobilidade social com a proliferação descontrolada de pequenos negócios do varejo. Empreendimentos familiares, já naturalmente difíceis de ser mantidos pelo baixo preparo dos diretores e pelo quadro de intensa competitividade, defrontam-se com um fantasma implacável até para quem acumula tradição de sucesso.

Todas as vantagens possíveis e imagináveis das grandes e médias redes de negócios varejistas em forma de compras, de vendas, de marketing, de gerenciamento de pessoal, de gerenciamento financeiro, de publicidade, de ganho de escala, enfim, de tudo que se entende como corolário de competências sobrepostas, tudo isso é de baixa acessibilidade aos pequenos. Restam-lhes personalizar o atendimento e aproximar o mais possível dos pontos positivos dos grandes. Uma tarefa praticamente impossível.

O Grande ABC — como as demais regiões metropolitanas do País — não teve capacidade para antecipar-se ao turbilhão no setor comercial e está pagando caro por isso em forma de exclusão empresarial, propulsionador de exclusão social. Por isso os indicadores de qualidade de vida despencam.

Uma das possibilidades para minimizar os custos econômicos e sociais de tantos erros acumulados seria a criação de espécie de Fundo do IPTU, recurso adicional que as prefeituras lançariam para, em conjunto com empreendedores de pequeno porte, preparar diagnóstico e planejamento para executar obras de infra-estrutura e ações de marketing voltadas aos pequenos negócios do centro e dos bairros.

Enfim, o caminho é a profissionalização da administração do espaço comercial. É assim que os grandes agem.



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