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Nosso Século XXI (2ª Ed.)

Educação é central no
desenvolvimento humano

KLINGER SOUSA - 16/09/2008

São recorrentes os argumentos que associam a educação ao desenvolvimento. Independentemente do tipo de desenvolvimento
de que se esteja tratando — o econômico, o social, o humano ou o científico e tecnológico –, já não causa espécie que o tema da educação ganhe centralidade neste debate. Os dois termos — educação e desenvolvimento — são tomados no sentido de progresso, de um movimento para melhor, o que torna coerente a associação desses conceitos numa relação de causa e efeito recíproca.

Faz sentido delimitar o tema territorialmente — no caso, nos limites do Grande ABC — na medida em que há muito se trata o desenvolvimento na relação com uma dada sociedade circunscrita em um território. Não é demais lembrar que tanto o Estado quanto a sociedade, tal qual concebemos hoje, são fundamentalmente resultados de um tempo que convencionamos chamar de Idade Moderna.

A modernidade, surgida da ruptura com o medieval, revolucionou as instituições e reconstruiu a sociedade transformando os indivíduos e determinando significados e sentidos com os quais hoje nos deparamos. A idéia de que tudo obedece a uma ordem pré-determinada — e que, portanto, estamos sujeitos a certas regularidades e submetidos a determinadas leis — domina o paradigma da modernidade e arrasta consigo a ideologia do progresso contínuo e permanente. Combinados, ordem e disciplina conferiram ao pensamento moderno a crença do desenvolvimento pleno e ilimitado da civilização humana.

A educação formal oferecida na escola dentro do formato que conhecemos hoje é produto da modernidade e guarda com seus paradigmas de ordem e disciplina uma relação muito estreita. Interessa, portanto, pensar na relação entre educação e desenvolvimento na contemporaneidade tendo em vista determinadas nuanças que tornam frágeis alguns paradigmas da modernidade e exigem nova significação de conceitos.

Para tanto, tratarei inicialmente do tema da educação e do seu significado na contemporaneidade, em seguida discorrerei sobre o significado do desenvolvimento para, na sequência, estabelecer a ponte com um dado território.

Tomando algumas idéias recentes que vinculam o desenvolvimento ao território, pretendo estabelecer a lógica de uma estratégia que considere a educação como elemento central. Não deixarei de mencionar algumas experiências em curso desde meados da década de 1990 que procuram dar sentido a um projeto de educação que considere a lógica do território. Entretanto, ainda que sem negar a influência dessas idéias seminais, defenderei um novo conceito para a educação enquanto projeto de desenvolvimento tendo em vista determinada unidade territorial.

Para interromper a discussão, ainda que provisoriamente, apresentarei algumas conclusões preliminares que possam ser inferidas do conjunto dos pontos defendidos, propondo uma nova agenda de temas que atraiam a atenção dos próximos alcaides que assumirão os municípios no Grande ABC.

A história da escola moderna registra importantes evidências da existência de valores paradigmáticos na constituição do currículo, valores esses que ainda gozam de intenso prestígio em nossa sociedade. O tempo e as aceleradas transformações por que passou a sociedade, particularmente nos últimos 100 anos, não se mostraram capazes de apagar o prestígio desses valores. Demonstram isso a questão da ordem e da disciplina, o papel e a importância da emulação, a convicção na força da regularidade, o prestígio das áreas de conhecimentos ditos tradicionais, além da prevalência de uma perspectiva positivista na maioria dos comitês de validação dos saberes.

É com o questionamento da eficácia do projeto de civilização moderno que se põem à prova as categorias clássicas da modernidade. Ao afirmar “que o que chamamos de nossa civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas”, Sigmund Freud (O Mal-Estar na Civilização, 2002) choca os interlocutores, preparando-os para uma argumentação que demonstra a inviabilidade do projeto de civilização moderno de tornar os homens felizes.

Ao analisar o projeto de civilização humana e melhor compreender o porquê de “não nos sentirmos confortáveis na civilização atual”, Freud constata a importância da beleza, da limpeza e da ordem para esse projeto, assim como as atividades intelectuais do homem como a religião, o sistema filosófico e os ideais humanos. Destaca ainda em suas considerações como um terceiro grupo de questões fundamentais para a civilização “a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, são regulados”.

Essas considerações articuladas por Freud trazem para o centro do debate a questão dicotômica do campo de interesse público em oposição ao do interesse privado no projeto de civilização moderno. O que nos lembra o mestre é que a essência do projeto civilizador está na capacidade dos homens de imporem limites à própria liberdade tendo em vista o interesse do grupo. Suas palavras: “A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização”.

Estava claro o vínculo moderno entre o projeto civilizador e o projeto individual, ou seja, o indivíduo se realizaria na medida em que viesse a contribuir com a realização do projeto da modernidade. A promessa subjacente a legitimar o processo educativo era a contida nos paradigmas fundantes da modernidade: a ordem, a disciplina, o progresso contínuo, a segurança, quase como decorrências obrigatórias de uma existência ordeira, dedicada e obediente.

“A identidade devia ser erigida sistematicamente, de degrau em degrau e de tijolo em tijolo, seguindo um esquema concluído antes de iniciado o trabalho. A construção requeria uma clara percepção da forma final, o cálculo cuidadoso dos passos que levariam a ela, o planejamento a longo prazo e a visão através das consequências de cada movimento. Havia, assim, um vínculo firme e irrevogável entre a ordem social como projeto e a vida individual como projeto, sendo a última impensável sem a primeira” — diz por sua vez Zygmunt Bauman na obra Mal-Estar da PósModernidade.

A tecnologia não torna as pessoas
mais felizes. Os desenvolvimentos
material e humano estão desarticulados

Ocorre, entretanto, que as mudanças se aceleram. Já não há segurança, nenhum aprendizado, nenhuma carreira, nenhum saber é garantia de estabilidade, de conforto, de emprego, de um padrão de vida para todo o sempre. As evidências de uma descontinuidade no progresso dos indivíduos saltam aos olhos e desmentem de forma acachapante a crença (nunca antes demonstrada) de que as pessoas melhoravam de forma progressiva, constante e inexoravelmente suas vidas.

“A idéia não era mais garantir um bom emprego para todos, conforme a tradição socialista, mas disseminar o espírito da concorrência agressiva por intermédio de uma nova agenda educacional, de modo que, num mercado cada vez mais concentrado, somente os mais aguerridos, os mais individualistas e os mais experientes prevalecessem, em detrimento dos desfavorecidos em todos os quadrantes do planeta”– destaca Nicolau Sevcenko em A Corrida para o Século XXI: no Loop da Montanha-Russa (2001).

Embora em espaço de uma geração fosse possível perceber ganhos em termos tecnológicos (o estoque de saber da humanidade) facilitando a vida das pessoas, já não era evidente que tais ganhos tornavam-nas mais felizes. Ao contrário, começa-se a perceber que tais conquistas são, na verdade, recursos para solucionar problemas que antes não existiam e que passaram a existir como resultado de outras supostas conquistas ou ganhos tecnológicos.

Ao invés de consolidar um desenvolvimento virtuoso econômico, social, científico e humano, surgem evidências de que a educação dentro do paradigma tradicional da modernidade já não dá conta de articular o desenvolvimento material da sociedade com o desenvolvimento humano.

O pensamento moderno conferiu ao termo desenvolvimento um significado intrinsecamente otimista (Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia, 2000) e fortemente relacionado ao progresso — em adição ao sentido antigo atribuído por Aristóteles, que dava ao termo caráter de movimento, passagem de um estado a outro. Esta consideração não é mera erudição, mas permite compreender o sentido axiológico que possibilitou a idéia de desenvolvimento consolidar-se como algo mais que desejável e requerido como sustentáculo de uma sociedade.

Desenvolver-se, no sentido hegeliano, é movimentar-se na direção do concreto, é partir do pensamento (abstrato) na direção da idéia (concreta). O pensamento que é livre e abstrato tem em si, latente, a idéia que se concretiza a partir do pensar que se desenvolve sobre si mesma tal qual uma espiral que se eleva do indeterminado ao determinado, do mais geral ao mais específico, da abstração à racionalidade.

Estas categorias filosóficas de Georg W.F. Hegel (Introdução à História da Filosofia, 2006) tiveram forte influência na constituição dos paradigmas da modernidade e conformaram uma visão de mundo que toma todo desenvolvimento como virtuoso em si mesmo, capaz de realizar os desígnios da humanidade e de sua racionalidade, elevando o homem em sua ação na direção do absoluto.

“O verdadeiro, em si mesmo assim determinado, tem o impulso para se desenvolver. Só o vivo, o espiritual, se move, se mexe em si, se desenvolve. A idéia é, pois, desdobrando-se a si ou em si concretamente, um sistema orgânico, uma totalidade, que contém em si uma riqueza de estádios e momentos”(Hegel, 2006). Tal filosofia cai como luva para uma sociedade que se funda na razão (idéia como categoria hegeliana) e que acredita no progresso como desígnio humano e resultado inexorável do exercício de sua liberdade, consciência e totalidade.

Todavia, o que se constata contemporaneamente é que o acúmulo de conhecimento e o emprego da razão voltam-se igualmente à destruição e à miséria. Cada vez mais excluídos denunciam suas precárias condições de vida diante de conquistas fantásticas para o conjunto da sociedade, que só são apropriadas por uma minoria em condição de pagar por essas conquistas. É preciso reencontrar o ponto em que educação e desenvolvimento de fato se associem, sob pena de permanecermos sem compreender a dificuldade de aprendizagem das novas gerações, sua dispersão e a aparente falta de sintonia dos projetos pedagógicos de nossas escolas com o efetivo interesse de nossos alunos.

A chave para reconciliar a educação com o desenvolvimento está no território. O desenvolvimento material da sociedade — dito econômico — precisa se articular com o desenvolvimento da sociedade — dito social — e das pessoas que façam parte, o desejado desenvolvimento humano. Isso se materializa em um território determinado que circunscreva uma comunidade.

O desenvolvimento econômico local e regional é o que se apresenta mais próximo do indivíduo. É o que escapa aos indicadores tradicionais de riqueza (PIB per capita) e se aproxima mais daquilo que chamamos de bem-estar. Trata-se da combinação de indicadores quantitativos com um conjunto qualitativo (e necessariamente subjetivo) de indicadores, como viver com tranquilidade em um ambiente preservado, com respeito aos direitos humanos, confiança nas autoridades e instituições políticas, possibilidade de ascender socialmente etc.

Na comunidade é possível combinar os valores públicos que embasam o projeto de civilização moderna com a dinâmica competitiva de autodesenvolvimento que se impôs na prática do sistema de produção capitalista. Sem desconsiderarmos o processo de globalização, que já no início da década de 90 deu novo ritmo às transformações internas no Brasil desde a redemocratização em meados da década anterior, o fato é que o desenvolvimento econômico local e regional ganhou centralidade seja pelo campo da resistência ao movimento de homogeneização das identidades, seja pela percepção de um novo modelo de globalização por articulação em redes de cidades e regiões.

É no seu território que indivíduos percebem o alcance de suas potencialidades e a articulação das redes que podem ser relevantes para impulsionar a melhora na qualidade de vida. Portanto, é a partir do território que se pode propor o engajamento consciente, entusiasmado e autônomo dos indivíduos no próprio desenvolvimento.

A educação precisa ter em vista o
progresso pessoal, e não apenas material.
Educação deve ser uma tarefa de todos.

O termo articulação é central na proposta. Articular-se a outro não é a mesma coisa que ser parceiro de outro. A parceria implica coordenação de ações com vistas a determinado objetivo comum. O que importa é alcançar o objetivo determinado a partir de divisão de esforços entre os parceiros. Já na articulação os entes envolvidos sincronizam as ações, o que gera sinergia com vistas a um processo comum, uma caminhada virtuosa que tem em vista objetivos coletivos, mas que permite a realização dos projetos individuais.

A educação precisa se constituir em um propósito dos indivíduos tendo em vista o progresso pessoal, e não apenas material. Para tanto, é fundamental que haja cumplicidade entre os indivíduos e o projeto educacional em curso é a única possibilidade de isso se efetivar. Nas palavras de Rosa Maria Torres em Comunidade de Aprendizagem: a Educação em Função do Desenvolvimento Local e a Aprendizagem, é preciso “fazer da educação uma necessidade e uma tarefa de todos, desenvolvendo e sincronizando os recursos e os esforços da comunidade local e nacional”.

Não se pode simplesmente desconsiderar o legítimo interesse dos indivíduos em melhorar de vida em nome de um altruísmo requerido por um modelo de civilização que desloca o bem-estar individual para o campo do bem comum. A dinâmica contemporânea da sociedade e o modelo de produção vigente exacerbam a competição e mitigam a solidariedade e a cooperação. Um modelo virtuoso que busque articular a educação com o desenvolvimento precisa considerar a competição entre indivíduos e organizações como parte do sistema, mas na mesma medida em que promova oportunidades de cooperação com vistas a empreendimentos coletivos.

É preciso que se materializem resultados no esforço educacional, que se traduza em indicadores o desenvolvimento requerido e que todos na comunidade tirem proveito do processo (de forma e em quantidades diferentes).

Um projeto educacional pensado nesta perspectiva ultrapassa e muito a formalidade da escola e exige articulação com a comunidade. Empresas, organizações da sociedade civil, governos locais e regionais e indivíduos precisam comprometer-se e participar do esforço de concepção e implementação que o projeto exige. Um projeto de desenvolvimento que se articule a esse projeto educacional é configurado em rede, determinando relações e fluxos em múltiplas direções e cobrindo um campo amplo. Exige que se baseie em alianças dentro da sociedade local, mas que considere a emulação como elemento fundamental para a inovação.

Inovação no campo educacional não tem o mesmo significado que no campo científico e tecnológico, onde está associada ao novo simplesmente. Na educação, a inovação requer avaliação qualitativa de resultados e acima de tudo mudança de prática com significativo impacto na sociedade.

Articulação, inovação, desenvolvimento em rede e comunidade regional são palavras-chave em um novo contexto em que a agenda de interesses global se impõe ao local, mas onde os indivíduos, que vivem no local, se rebelam e procuram novos sentidos e significados na determinação de suas identidades. É no desenvolvimento destes temas que se configura uma nova agenda que faça sentido em um projeto de desenvolvimento que confira centralidade à educação no Grande ABC.



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