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Imprensa
Vendedores infames
DANIEL LIMA 20/01/2009
Quanto mais ando, mais desconforto sofro. A cessão da marca LivreMercado é um alívio profissional e pessoal, porque me abre as portas para novas investidas, com novos parceiros, e me retira o fardo de ter assumido há pouco mais de um ano sob coação uma carga mais do que pesada.
Entretanto, o passivo que descubro aos poucos me deixa irritado.
Há muitos vendedores infames na praça que perderam o emprego ou estão tendo dificuldades para viver, porque não podem mais negociar meu patrimônio profissional.
Ainda hoje encontrei um amigo, cujo nome deixo na confidencialidade da prudência, e só não tive o almoço seguido de náuseas porque nada mais é surpresa para mim. Ele me relatou alguns casos de apropriação indébita de meu nome à frente da revista LivreMercado por gente desqualificada que se dizia vendedora de publicidade.
Por serem tantos os casos que me relatam aqueles que eventualmente me encontram e sabem dos últimos acontecimentos, cada vez mais reúno forças para resistir a transtornos emocionais. A repetição de uma agressão nos torna mais preparados aos impactos subsequentes e nos faz, de alguma forma, muito mais resistentes.
Frequento muito pouco os encontros sociais no Grande ABC, por conta de minha espartana disciplina profissional. Mas também passei a avaliar o risco, porque se sair a cada noite terei sobressaltos. É impossível dormir em paz diante de novas revelações.
Há relatos de casos eticamente descomunais.
Se me decidir a escrever a história de LivreMercado, os leitores vão compreender a grandeza e a profundidade da linha editorial que adotamos. Não fosse a procura intensa pelo diferenciamento analítico, fatalmente não teríamos resistido à avalanche de sem-vergonhices dos vendedores infames.
E olhem que, desconfiado da potencialidade criativa de determinados consultores da malandragem, criei blindagens para neutralizar ao máximo os efeitos deletérios no Departamento de Redação, área sob minha responsabilidade durante os 19 anos da publicação.
O Prêmio Desempenho, por exemplo, sempre foi objeto de acuradíssimo cuidado. Logo de imediato, detectei algumas possibilidades de vazamentos morais e éticos que poderiam dinamitar a longevidade e a credibilidade da premiação.Tanto que criamos o Conselho Editorial como definidor e fiscalizador da premiação.
Ainda não decidi o que fazer no jornalismo nos próximos tempos, depois de sair da exclusividade de dedicação e do sufoco de LivreMercado, mas posso assegurar que do Departamento Comercial não abrirei mão em termos de conceituação e execução de atividades afinadas com o senso de responsabilidade corporativa e social do eventual produto que venha a preparar.
Não acredito, sinceramente, que a atividade de venda, tão nobre e tão especial na dinâmica econômica, seja apenas o tão somente uma réplica do que me relatam as vítimas dos vendedores infames.
Só lamento que as vítimas não tenham denunciado a tempo tantas irregularidades. A impressão que passa é que a sociedade civil está cada vez mais determinada a aceitar trambicagens. Eliminá-las supostamente seria mais trabalhoso e provocaria indigestão nos relacionamentos que precisam do manto da hipocrisia.
Quem está acostumado a se expor, como este jornalista, nem sempre é interpretado sob luzes de lucidez e transparência. É mais fácil chamarem-me de louco, como fazem transgressores do alto da dissimulação dos intocáveis.
Vivemos numa sociedade em que vale muito mais a aparência e a conveniência do que a indignação e o inconformismo.
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