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Imprensa
Só dinossauros refutam mudanças
provocadas pelo jornalismo digital
DANIEL LIMA 27/07/2010
Não tenho opinião formada sobre tudo, mas sobretudo tenho opinião formada sobre algumas coisas. E isso custa caro, como se sabe, porque a especialização provoca estridências nem sempre civilizadas. O que me veio à cabeça ainda outro dia, quando debatia com alguns interlocutores possíveis novos passos profissionais, é até que ponto minha performance digital nos últimos 15 meses alterou concepções profissionais. Nesse período me afastei quase que inteiramente do mundo impresso, após repassar a revista LivreMercado a um aventureiro que se apresentou como messias. Tão aventureiro que, 13 edições mulambentas depois de trombetear excelência administrativa e midiática, negociou o controle da publicação com o Grupo Hoje Jornal, de São Bernardo.
Algumas manifestações que vivenciei nesse período sabático no qual me mantive longe de passarelas sociais cristalizaram juízos de valor que vou repassar aos leitores. Um repasse que não tem outro objetivo senão compartilhar minha vida profissional com quem me acompanha.
A principal conclusão a que cheguei dá conta de que há dois tipos de leitores, como só poderia acontecer num mundo em transformação, num mundo em que a tecnologia separa os mais atualizados dos dinossauros. Há um contingente cada vez maior de leitores digitais que valorizam o tempo despendido na Internet, enquanto um exército de conservadores ainda não deu a devida importância ao salto triplo nas comunicações, ditado pelo mergulho na virtualidade.
Muita gente que consome produto jornalístico físico não se deu conta de que a imprensa digital oferece alternativas interessantes à compreensão social de um determinado território ou mesmo do mundo. Os mandachuvas da imprensa impressa estão longe do controle social da informação de outros tempos. Pelo menos para os leitores mais inconformados com o nível dos produtos que lhes oferece a linha de produção ultrapassada da maioria desse modelo em franco declínio econômico.
Fiquemos na questão territorial do Grande ABC: é impossível acreditar que se conheça um determinado assunto dependendo-se apenas de uma única fonte de informações, como ocorreu senão de forma avassaladora, mas predominante até os anos 1980. A versão única ou quase única de determinado fato já não encontra ressonância acrítica de antes.
Mais que a competitividade e os vieses ideológicos e econômicos que provocam entrechoques nos meios de comunicação da região, o que pesa na constatação de que há outros caminhos a desvendar os fatos é um elevadíssimo grau de superficialidade do noticiário. Mesmo com a diversidade, a pressa do jornalismo diário impresso está sendo repassada ao jornalismo digital, em prejuízo da reflexão. Seria surpreendente se a situação fosse diversa, porque a grande maioria dos jornalistas não consegue enxergar o óbvio na massa de informações que recolhe diariamente. De qualquer maneira, sempre sobra espaço para o contraditório cruzado, ou seja, o confronto do mesmo noticiário divulgado por fontes diferentes.
O que o Diário do Grande ABC publica da gestão de Aidan Ravin, com quem mantém muita proximidade, é diferente do que publica o ABCD Maior, mais crítico à centro-direita representada pelo prefeito de Santo André. Um Repórter Diário é menos abundante em noticiário mas mais qualificado em conteúdo que a maioria das matérias apressadas do Diário do Grande ABC.
Exatamente porque há vácuo reflexivo no mercado da informação material e digital o conceito-base de CapitalSocial está na expressão “Leitura para ser impressa”, que complementa a própria identificação desta publicação, no alto desta página.
Em oposição aos cultivadores da leitura impressa como peça sacrossanta da catedral da informação a ser consumida, mesmo sob desconfiança à qualidade e à veracidade, há os leitores de informações digitais que se aprofundam na Internet de forma assídua, crítica, influenciadora.
Já fui surpreendido por pessoas que jamais vi mais gorda que, ao me identificarem nos cantos da vida, numa padaria, num bar, numa pizzaria, apressam-se em assumir a condição de leitores deste site. Me causaram espanto não por serem leitores, porque há loucos para tudo, mas pela profundidade temática com que me abordam. Não são leitores ocasionais que invadem a Internet e apenas passam os olhos sobre os textos como quem desse uma lambida rápida num envelope a ser postado. São seguidores de algo que não se limita a 140 caracteres geralmente inconsistentes dos twitters.
Outro dia um leitor de Complexo de Gata Borralheira me abordou sobre desdobramentos do livro que lancei em 2002 e que, confesso, é meu xodó literário. Ele conhecia profundamente os personagens que criei para tentar abreviar, em 150 páginas, a apresentação histórico-cultural deste território de 2,6 milhões de habitantes. Fiquei emocionado.
Talvez o caso deste jornalista seja excepcional, um ponto fora do padrão, porque venho de uma atividade intensa no jornalismo impresso, o qual, cuidadosamente, reproduzo neste endereço eletrônico com o transplante gradual e paciente do acervo da revista LivreMercado, construído entre março de 1990 e janeiro de 2009.
Mesmo que seja um caso muito particular, a situação está aí e não pode ser desprezada, principalmente porque simboliza a exequibilidade de sustentar jornalismo fora da bitola fastfoodiana.
Da mesma forma que sinto entusiasmo de leitores que se adaptaram ao digital com a flexibilidade própria dos modernizadores, há no mercado consumidores de informação que desprezam de fato e também quem finge desprezar o jornalismo digital.
Os que desprezam para valer não se dão conta de que ganham a forma e o conteúdo de cacarecos sociais. Escapam-lhes novos referenciais de informações qualificadas de modo que continuam a agir com olhos e coração no passado e, por isso mesmo, com a sem-cerimônia dos ignorantes. Não imaginam as transformações culturais ao redor. Principalmente se forem alvos de críticas. A imagem social que imaginam ostentar desmorona sem se darem conta da exata noção da situação.
Já os que fingem desprezar a mídia digital vivem um grande dilema, porque em paralelo com a emotividade de quem quer acreditar que só o que está impresso, no papel de jornal ou revista, é que tem relevância, vivem às turras com a racionalidade evocada pela alternativa mais revolucionária dos meios de comunicação porque sempre há alguém a cutucar-lhes a insensibilidade artificializada que se converte em porta escancarada à realidade.
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