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Imprensa
Pirataria jornalística
DANIEL LIMA 29/07/2009
Quem é do ramo editorial sabe que não se deve utilizar provérbios ao deus-dará. Geralmente, provérbios são muletas de quem não conta com recursos culturais para metabolizar informações de forma contextualizada e persuasiva. Quando um provérbio é lançado equivocadamente como âncora de um conceito, por mais vadio que seja o conceito, por mais mentiroso que seja o conceito, a situação se agrava.
Passa-se publicamente o atestado de pirataria funcional.
Provérbios são sabedorias submetidas e aprovadas em julgamentos públicos muitas vezes seculares. Por isso, quando rebocados à atualidade, podem tornar-se quixotescos.
Provérbios manipulados sem habilidade espatifam-se nas muretas da inteligente. São ponte pênsil que despenca ao peso da verdade. Seus autores são indianasjones ao contrário. Também podem, por isso, ser chamados de otários. Ou manés, como está na moda telenovelesca.
Provérbios administrados editorialmente por quem não é do ramo jornalístico viram bumerangues, como se notará neste artigo.
Confundir produção jornalística com blábláblá de vendedores profissionais é subestimar a capacidade crítica dos leitores. É conversa para boi dormir.
Por falar em conversa para boi dormir, viram como a expressão está bem encaixada e resume juízo de valor? Mais: não foi alçada à condição de estrela da companhia de argumentação deste artigo. É apenas um acessório do objeto motivacional destas linhas, apenas isso. Poderia até desprezá-la neste texto, mas a uso provocativamente.
Uma das armas dos malversadores éticos, dos usurpadores do senso de responsabilidade, é manipular palavras e frases. Principalmente velhos e desgastados provérbios.
Acreditam esses quase iletrados que, com isso, transmitirão suficiente bagagem cultural para impressionar o distinto público.
Imaginam esses transgressores que basta convocar fraseologia histórica para arrebanhar credibilidade e neutralizar, quando não anular, os efeitos das provas materiais de incompetência.
Quando se recorre a provérbio para tentar escapulir das responsabilidades festejadamente anunciadas a um público embasbacado porque crédulo, porque esperançoso de que não haveria descarrilamento de um produto, quando se perpetra tamanha sandice, a situação está pior do que parece.
Mais pernicioso que o uso de provérbios fora de moda ou exteriorizados com a profundidade de uma lâmina de água no asfalto é descontextualizar os fatos.
Quem poderia esperar a vitória de Luiza Erundina em 1988 na Capital, com 29,84% dos votos em turno único, quando o ex-governador Paulo Maluf era o grande favorito? A cinco dias da eleição, Erundina estava a nove pontos de Paulo Maluf. Um dia antes, trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, ocuparam a empresa e foram reprimidos pelo exército e pela PM. Três operários morreram e uma centena ficou ferida. Era o que Luiza Erundina precisava para virar o jogo no último dia.
Quem também sugeriria que o médico Aidan Ravin venceria em Santo André? Nem mesmo o Ibope, contratado pelo Diário do Grande ABC, conseguiu diagnosticar o resultado no dia da votação. Atribuiu empate técnico numa disputa que consumou 10 pontos percentuais de diferença — 55,03% a 44,97 dos votos válidos. Nenhuma avalanche daquela proporção apareceria no radar de especialistas. Não foi a primeira nem a última vez que uma grande zebra se manifestou.
Aidan Ravin tornou-se uma zebra vestida de branco até mesmo para o próprio Aidan Ravin, porque chegou ao segundo turno no fio da navalha.
Nenhum outro jornalista analisou a trajetória vitoriosa de Aidan Ravin no segundo turno. Relatei com base em informações exclusivas que a vitória do candidato foi sim uma zebra, mas sem relação com a metafísica. Foi uma orquestração traçada para despertar, arrebanhar e mobilizar silenciosamente o eleitorado já naturalmente dividido entre petistas e não-petistas. Foi uma zebra fomentada pela organização oposicionista. Aidan Ravin não ficou de papo para o ar à espera de um milagre.
Raimundo Salles, que chegou em terceiro lugar no primeiro turno, quase empatado com Aidan Ravin, também venceria a disputa se lhe fosse carreado todo o conjunto de medidas que envolveram administrações municipais e estaduais adversárias do PT de olhos abertos nas urnas governamentais e federais do ano que vem. Tudo mantido a sete chaves. Tudo que ficaria imerso e fomentaria a idéia de obra do além não fosse o empenho deste jornalista em busca de explicações. Vivemos em sociedades desorganizadas que, quando tocadas por estrategistas socioeleitorais, afloram manifestações muitas vezes inconscientes que mais se aproximam de seus valores culturais. Pesquisas qualitativas são o motor de arranque de pesquisas quantitativas.
Como não sou Deus, não tenho pretensão nem um mínimo de crédito para tanto, é claro que produzi aquele relato após o segundo turno encerrado, vitória consumada, zebra solta no Paço Municipal. Não conheço ninguém que tenha descrito a façanha antes que a façanha de fato de consumasse. Nem depois. Apenas agora surge em cena um falastrão mal-ajambrado a cantar de galo.
Há sempre engenheiros de obras prontas que, acossados pela descoberta de que produzir uma publicação jornalística, mesmo que uma publicação jornalística provinciana, dá imenso trabalho, atribuem-se patéticos poderes mediúnicos, porque, vejam só, procuram descredenciar quem, baseado em fatos e em pesquisas confiáveis, carimbou Aidan Ravin zebra de branco.
Ao longo dos anos em que comandei editorias ou publicações, mantive rígida contrariedade à banalização de fraseologias, principalmente como suporte de enredo que se pretende levar aos leitores.
Sou do tempo de cobertura esportiva que preguiçosamente puxava pelo clichê de “jogando ontem à tarde no Estádio Bruno Daniel, o Santo André conseguiu vencer…”. Sempre abominei esse tipo de texto.
A função do bom jornalista é surpreender o leitor. Tive alguns mestres à distância no jornalismo e importantes colaboradores mais próximos, com os quais procurei somar experiências.
Os provérbios, por mais bem ajustados à situação vivida, já não serviam naqueles tempos para quase nada, exceto se estimulassem a criatividade e gerassem analogias.
Como se não bastasse o contrabando canhestro de sabedoria popular e a tentativa de negar a cronologia natural dos fatos como explicação suprema à condição de zebra vestida de branco de um concorrente vencedor, o pobre articulista que mal consegue combinar sujeito e predicado ainda se mete a esticar o dedo da arbitrariedade para tentar atingir quem não abdica da função crítica inerente do jornalismo independente.
A surrada cantilena de que este jornalista não trafega pelo positivismo é uma das poucas verdades do “editorialista” penetra.
Ser positivista no sentido que o vendedor de tributos travestido de jornalista imagina que deva ser este profissional é a negação completa de quase meio século de um legado que leitores mais qualificados têm todo o direito de julgar. Estou acostumadíssimo a pressões.
A série “Metamorfose econômica” é meu mais recente cartão de visitas. Nada, nada, absolutamente nada, é capaz de distinguir profissionais de penetras senão o tempo, o senhor da razão.
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