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Esportes
Saída estratégica para
dar drible no rebaixamento
DANIEL LIMA 15/01/2008
Presidente do Esporte Clube Santo André durante 15 anos, período mais reluzente do futebol profissional da cidade, o empresário Jairo Livolis está fora do Santo André Gestão Empresarial Desportiva desde o dia em que invadiu os vestiários do Estádio Bruno Daniel após um mau resultado pela Série B do Campeonato Brasileiro, ano passado. Ofendeu comissão técnica e jogadores. Fez de propósito. Queria provocar uma situação tanto esportiva quanto diretiva, porque o comando do clube estava dividido e os reflexos atingiam a equipe.
Jairo Livolis perdera a autoridade como presidente do clube-empresa por conta da atuação do empresário Ronan Maria Pinto, então presidente do Conselho Consultivo. Havia fundas discordâncias metodológicas entre eles. O que Jairo Livolis fizera ao longo dos anos com rigidez perdera o sentido prático quando confrontado no dia-a-dia com o modelo mais liberal de Ronan Maria Pinto.
Paradoxalmente, o Santo André ameaçado de rebaixamento à Série C do Campeonato Brasileiro só melhorou quando se tomaram medidas que Jairo Livolis bradou nos vestiários: a demissão do técnico Sérgio Soares e o afastamento do time titular do ponta-de-lança Fernando Diniz eram exigências do então presidente do clube-empresa. Tanto um quanto outro resistiram por algumas rodadas depois da renúncia de Jairo Livolis, mas os resultados não ajudaram e eles acabaram deixando o clube.
A efetivação do desconhecido auxiliar técnico Fahel Júnior, inicialmente a contragosto dos dirigentes, contribuiu para a recuperação da equipe. Ele só assumiu porque o técnico Luis Carlos Martins, mais experiente, não aceitou a proposta do clube.
Nesta entrevista por e-mail, Jairo Livolis revela a decepção de ver o Santo André fugir do projeto de valorização dos pratas da casa, conta que foi contrário à contratação do atacante Marcelinho Carioca, lamenta a queda à Série B do Campeonato Paulista no ano passado, creditando-a ao oposicionismo do advogado Luiz Antonio Lepori, e considera muito difícil o Santo André encaixar modelo de receitas que possibilite ascensão à Série A do Campeonato Brasileiro.
Há várias versões sobre sua saída da direção do Santo André Gestão Empresarial. A principal dá conta de que não suportou a duplicidade de comando, porque seus métodos não se harmonizavam com os de Ronan Maria Pinto. Quando resolveu invadir os vestiários e gritar com jogadores e comissão técnica depois de novo mau resultado, o senhor estava decidido mesmo ao tudo ou nada?
Jairo Livolis – O Conselho Consultivo da empresa começou a tomar iniciativas em desacordo com suas atribuições. Decidiram pela demissão do vice de futebol e transferiram a sede da empresa do clube para outro local. Seguiram-se inúmeras iniciativas junto a atletas e comissão técnica, o que levou a um processo de desgaste que evoluiu até que senti total esgarçamento de minha autoridade. Quando negava, outras pessoas permitiam. Esse conflito de autoridade entre a diretoria executiva e o conselho da empresa teve reflexos muito sérios na equipe de futebol. Quando fui agressivo no vestiário com os atletas e comissão técnica já havia tomado a decisão de pôr um ponto final nessa desgastante relação e desafiar a todos para que reagissem e superassem todas as dificuldades.
Se o senhor não renunciasse ao cargo, o Santo André teria escapado do rebaixamento?
Jairo Livolis – Por tudo que já foi exposto, a queda seria inevitável.
Foi apenas a renúncia do senhor e do vice-presidente do Conselho Consultivo do clube-empresa, Celso Luiz de Almeida, que determinou a fuga do rebaixamento?
Jairo Livolis – Não. O conflito impediu que decisões importantes fossem tomadas, especialmente a substituição da comissão técnica e o afastamento de alguns atletas. Estranhamente os atletas se reuniram e fizeram um pacto com a comissão técnica e surgiu um pedido para que não se mexesse com ninguém. Vimos depois que somente no momento que os novos dirigentes tomaram essa atitude é que o time reagiu e começou a ganhar. Mesmo após a nossa saída o clube seguiu com dificuldades até que as atitudes que já desejávamos fossem tomadas, e a partir daí o time reagiu e começou a ganhar.
Qual foi sua posição em relação à contratação de Marcelinho Carioca, que elevou sobremaneira os compromissos orçamentários?
Jairo Livolis – Éramos contrários à vinda do Marcelinho Carioca pelo alto custo e pelos riscos potenciais de uma não-aceitação pelo grupo de jogadores. Fomos vencidos no momento em que foi prometida a vinda de um patrocínio que bancaria todo o custo do atleta, o que infelizmente acabou não acontecendo.
A crise no Santo André não teria começado bem antes, com o surgimento de um candidato de oposição à direção do clube esportivo num período em que o clube-empresa ainda dava os primeiros passos e as atenções acabaram divididas entre a formação da equipe para a Série A do Campeonato Paulista e a disputa dos votos dos associados?
Jairo Livolis – Sim. A partir do final de 2005, uma oposição política exagerada e com antecedência desnecessária levou a seguidos episódios de desconforto para a minha administração. A partir de então a preocupação minha e da diretoria dividiu-se entre cuidar do clube, da equipe de futebol e administrar adequadamente interesses políticos. As interferências começaram a acontecer já no Campeonato Paulista de 2006, que disputamos com muitas dificuldades.
Qual é o balanço que o senhor faz dos 15 anos à frente do Santo André e como vê o futuro do futebol profissional da cidade com o modelo de clube-empresa?
Jairo Livolis – O início da minha administração há 15 anos deu-se com a conclusão e inauguração do conjunto Poliesportivo. Colocamos em funcionamento um clube sonhado por todas as pessoas de Santo André. A partir desse momento o clube foi crescendo, ganhando contornos maiores e assistimos ao Santo André de 11 camisas se transformar em clube grande.
No final da década de 90 passamos a trabalhar para transformar o time de futebol do Santo André, até então pequeno e integrante da Segunda Divisão do Campeonato Paulista, projetando uma trajetória semelhante à da Sede Poliesportiva e que crescesse na direção de se transformar em um time grande.
Para isso idealizamos, projetamos e colocamos em funcionamento o Projeto Jovem Santo André, cujo objetivo maior era revelar jogadores de alto nível e com potencial para garantir qualidade à equipe profissional. O resultado dessa iniciativa materializou-se quando o Santo André surpreendeu a todos e foi campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em 2003, a primeira grande conquista. Com o mesmo grupo de jogadores, no mesmo ano, fomos campeões da Copa Estado de São Paulo e vice-campeões brasileiros do Campeonato Brasileiro da Série C. Na sequência, esse mesmo grupo, com alguns atletas mais experientes, conseguiu nossa maior conquista: a Copa do Brasil.
Nossa leitura sempre foi que o processo de revelação de atletas se transformasse na grande mina de ouro para o futuro do futebol profissional.
Esse modelo que está aí tem algo a ver com tudo que projetou para o Santo André nestes tempos em que futebol e negócios giram em torno do mesmo eixo? Que modelo gostaria de ver aplicado no Santo André?
Jairo Livolis – O modelo que gostaria de ver aplicado no Santo André era um Jovem Santo André enriquecido, ampliado, recebendo mais recursos e atenção, revelando assim mais e melhores jogadores. A partir desse pensamento imaginei que a equipe conseguiria repetir as conquistas anteriores e a negociação de atletas geraria mais recursos.
O senhor diria que clube-empresa, por enquanto, é apenas clube de investimentos, já que não se tem, de fato, estrutura de uma organização empresarialmente forte?
Jairo Livolis – O modelo de clube-empresa concebido, apoiado pela chegada de investidores atraídos pelo potencial de faturamento com a venda de atletas formados pelo Jovem Santo André, está neste momento sofrendo mutação com o foco central sendo desviado para o resultado técnico, com a contratação de atletas de nome e seguindo uma direção inversa à que foi proposta inicialmente.
Como reagiu a algumas críticas à suposta fadiga do material com que conduzia o Santo André?
Jairo Livolis – Críticas infelizes. Quem as fez, já se desculpou.
Como se sente ao ter dado a partida nesse projeto de clube-empresa?
Jairo Livolis – Tenho a certeza de ter tomado uma iniciativa absolutamente necessária para o futebol de Santo André.
Há críticas ao seu trabalho no Santo André, durante uma década e meia, por conta de isolamento da comunidade formadora de opinião e tomadora de decisões. O senhor tentou mudar esse quadro?
Jairo Livolis – É uma questão de personalidade. Sempre tive espírito empreendedor, senso de iniciativa e muita disposição para construir. Sempre discutia com minha equipe diretiva, elegia os caminhos e tomávamos as decisões consensualmente.
Qual é a diferença entre o período em que o Santo André se organizou para conquistar acessos tanto no Paulista quanto no Brasileiro, para a conquista da Copa do Brasil e também para a conquista da Copa São Paulo de Juniores, e os últimos tempos de vacas magras?
Jairo Livolis – As grandes conquistas vieram apoiadas em uma base de atletas formados no Jovem Santo André combinados com a chegada de atletas consagrados. Essa mescla resultou em uma mistura extraordinária. As conquistas, porém, geraram cobranças muito maiores do que estávamos preparados. A partir desse momento fizemos esforços gigantescos para manter aquele grupo vencedor elevando a nossa folha de pagamento a números expressivos na expectativa de gerarmos contrapartida nas receitas. Esse desequilíbrio levou o Santo André a dificuldades financeiras que ficaram evidentes na temporada 2006. Tornou-se clara a necessidade de mudarmos o modelo de gestão. O modelo empresarial criado visou buscar o equilíbrio financeiro.
O que faltou para o Santo André chegar à Série A do Campeonato Brasileiro? Quanto de orçamento seria preciso para que fosse dado esse salto? Quanto é preciso, em tese, para que se dispute a Série B do Brasileiro com possibilidades de chegar à Série A?
Jairo Livolis – Sob o ponto de vista financeiro, os clubes que disputam a Série B com reais intenções de subir para a Série A investem entre R$ 10 milhões a R$ 15 milhões a cada ano. Sob o ponto de vista financeiro, o Santo André não tinha e não tem ainda nenhuma condição de ascender à Série A. Qualquer pensamento de levar o Santo André à Série A, não passa de um “wishful thinking”, a não ser pelas surpresas que o futebol oferece, assim como aconteceu conosco na conquista da Copa do Brasil.
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