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Esportes
Ronan, o absolutista
DANIEL LIMA 23/10/2009
O Santo André só chegou à Série A do Campeonato Brasileiro porque contava com o comando diretivo de Ronan Maria Pinto.
O Santo André só chegou à zona de rebaixamento da Série A do Campeonato Brasileiro porque conta com o comando diretivo de Ronan Maria Pinto.
O Diário do Grande ABC só resistiu nos últimos anos depois de série de contratempos administrativos e financeiros porque o empresário Ronan Maria Pinto tomou conta das ações.
O Diário do Grande ABC só declinou como produto jornalístico nos últimos anos e assume cada vez mais ares provincianos porque conta com o controle de Ronan Maria Pinto.
Não é por acaso que Ronan Maria Pinto e absolutismo são sinônimos.
O ex-cobrador de ônibus do grupo de Nenê Constantino é empreendedor que não mede esforços e consequências para alcançar objetivos nem sempre traçados com ciência.
Além de absolutista, Ronan Maria Pinto é paradoxal.
Quem o vê apenas de casca e tudo, publicamente, destilando gentilezas e sorrisos, jamais seria capaz de imaginar o quanto transmuda nos bastidores.
Ronan Maria Pinto é ardiloso acima da média natural de quem quer se dar bem nos negócios.
Ronan Maria Pinto mostra os dentes com a classe e a discrição dos especialistas em sedução. Apenas em situações especiais contrai os músculos faciais a denotar contrariedade. Tirá-lo do sério é uma arte contraposta à arte da dissimulação da qual é mestre.
Dificilmente se encontra na praça quem seja mais controlador dos próprios nervos do que Ronan Maria Pinto.
A impressão que Ronan Maria Pinto transmite é de que fez tratado com deuses ou demônios para jamais perder a linha em público. É agradabilíssimo em encontros grupais. Tanto quanto complicadíssimo nas relações reservadas.
Nem tudo que parece é de fato quando Ronan Maria Pinto está em público.
Tudo que parece é de fato quando Ronan Maria Pinto exerce poder nos bastidores.
O Santo André deve muito ao perfil comportamental de Ronan Maria Pinto. Sem a ultrapassagem dos limites da razoabilidade econômico-financeira a equipe jamais teria chegado à Série A do Campeonato Brasileiro.
A Santo André que não está nem aí com o futebol profissional representado pelo Santo André de Ronan Maria Pinto ainda não conseguiu dimensionar o que pode lhe sobrar se a impetuosidade do empresário der com os burros nágua ou, muito improvável, se engrenar para valer. Catanduva e, vejam só, Tóquio, são limites extremos. Muito mais Catanduva, é claro.
As informações sobre o déficit orçamentário do Santo André nesta temporada são conflitantes apenas num ponto: se alcançará mesmo R$ 10 milhões ou se se limitará à proximidade de R$ 8 milhões.
Certo, certíssimo, é que o prejuízo será enorme e poderá comprometer a temporada de 2010 e subsequentes.
Como se sabe, a contratação do rebaixamento não é obra do acaso. É sucessão de equívocos.
Da mesma forma, a conquista de um título importante não nasce do nada, mas de planejamento, dedicação e muito mais.
A megalomania de Ronan Maria Pinto em levar a equipe à Libertadores da América ou à Sul-Americana está custando caro. O rebaixamento seria a consagração da incompetência. Gastar-se-iam os tubos para voltar à Série B.
Historicamente o Santo André de brilho discreto foi plasmado pelo conservadorismo de investimentos. Sempre se priorizou a perpetuidade da agremiação.
A conquista épica da Copa do Brasil de repercussão internacional foi a confluência de vários fatores, entre os quais a sorte de uma disputa senão lotérica, bem próxima disso, por conta do sistema de mata-mata.
O presidente daquela memorável conquista, Jairo Livolis, lamenta até hoje os desarranjos orçamentários após a participação na Taça Libertadores da América. O Santo André não tinha estrutura econômico-financeira para dar aquele salto.
Dinâmico, atrevido, dedicadíssimo à causa que devota, principalmente se a causa render os objetivos materiais que jamais negou, Ronan Maria Pinto faz das tripas coração para evitar a queda do Santo André.
Ronan Maria Pinto sabe que será difícil contornar na reta de chegada a série de bobagens que patrocinou desde o acesso no ano passado. O deslumbre já custou caro. O rebaixamento seria um desastre.
O Santo André é um festival de besteiras diretivas com profundos reflexos nos gramados.
Jornalista independente que seja amado e odiado é natural. Aliás, os grandes nomes do mercado regional e nacional são feitos dessa matéria prima indissolúvel mesmo diante de eventuais ameaças.
Já um presidente de clube-empresa que é visto com desconfiança pelos pares da empreitada é algo a inquietar. E Ronan Maria Pinto é observado sob lentes críticas cada vez mais próximas.
Há um sentimento em comum entre os acionistas do Santo André que fazem oposição velada a Ronan Maria Pinto: o temor de represálias nas páginas do jornal que o empresário comanda.
A perseguição que a publicação move contra o prefeito Luiz Marinho, de São Bernardo, é sintomática. O passado especulativo de participação do empresário na morte do prefeito Celso Daniel, contrariamente ao que concluiu a Polícia Civil em três investigações, ajudou a erigir a imagem alcaponesca de Ronan Maria Pinto.
Por isso, os acionistas permanecem calados ou condescendentes com tudo nas reuniões.
O regime diretivo do Santo André é de cartas marcadas, de simulacro de consensos produtivos.
Deixei de participar de reuniões dos acionistas quando percebi o prevalecimento de uma mistura de temor silencioso e engajamento tácito com o presidente Ronan Maria Pinto. Não é assim, convenhamos, que se constrói uma democracia esportivo-empresarial.
Ronan Maria Pinto é tão absolutista no comando do Santo André que introduziu sem o menor pudor a política partidária na engrenagem da agremiação.
A candidatura de Marcelinho Carioca e do vice-presidente Romualdo Magro Júnior às eleições do ano que vem para a Câmara Federal e a Assembléia Legislativa confunde os leitores do Diário do Grande ABC. Os noticiários se entrelaçam, independentemente dos humores resultantes dos gramados. Os interesses eleitorais passam ao largo das necessidades matemáticas de superação da ameaça de rebaixamento. Ronan Maria Pinto concebeu essa dupla eleitoral e a sustenta com a institucionalidade do Diário do Grande ABC.
Ronan Maria Pinto é um dos homens mais dinâmicos que este jornalista já conheceu. Cada minuto lhe parece o último, tal a forma com que se lança no cumprimento da agenda.
O problema de Ronan Maria Pinto é que não lhe sobra muito tempo para reflexão. Os ataques de estrelismo, que disfarça com frases de programada modéstia, sabotam qualquer expectativa de equilíbrio na execução de projetos.
Um exemplo imbatível do ciclotímico temperamento de Ronan Maria Pinto é o técnico Sérgio Soares, que deixou o Santo André após o acesso à Série A do Campeonato Brasileiro. Retornou depois de fracassadas experiências do Santo André nesta temporada com Sérgio Guedes e Gallo. O mesmo Ronan Maria Pinto que não fez esforço nenhum — muito pelo contrário — para reter o treinador na virada do ano, por considerá-lo menos importante do que de fato fora na conquista do Acesso à Série A, viu-se forçado a rever aquela decisão.
Ronan Maria Pinto só revê decisões quando as decisões tomadas o encalacram.
Ronan Maria Pinto é uma locomotiva sem freios que exerce o poder de forma avassaladora.
Ronan Maria Pinto raramente aceita ser o número dois em qualquer empreitada em que se mete. Terceiro, quarto ou qualquer outra colocação, só se estiver certo de que o exercício da paciência será recompensado. O prefeito de Santo André, Aidan Ravin, sabe disso. Os acionistas do Santo André também. O prefeito Luiz Marinho igualmente.
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