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Esportes
O que esperar de Ramalhão e
Azulão após overdose da Copa?
DANIEL LIMA 29/06/2010
Até que ponto o resultado final da Copa do Mundo na África do Sul vai inspirar eventual alteração tática nas duas equipes do Grande ABC que disputam a Série B do Campeonato Brasileiro? No curto prazo, isto é, no pós-Copa, o que prevalecerá?
Se o título for comemorado por selecionado metódico e cirúrgico como o de Dunga e outros treinadores, a cena regional e quem sabe também a nacional será subordinada à condicionalidade desse modelo que fez da Internazionale de Milão campeã da Europa? Se for a nocauteadora Argentina de Maradona, teremos reviravolta e a inspiração do Barcelona acabará ganhando preferência?
Em resumo, a pergunta básica é a seguinte: estará o futebol escorregando de vez para o cientificismo tático das pranchetas que somente raros craques são capazes de subverter ou haverá força maior em nome do espetáculo, principalmente televisivo, e voltaremos senão aos tempos românticos, a algo inclusive coreográfico menos previsível do que temos visto no Mundial?
É uma ironia do destino que nos tempos em que o futebol era muito mais arte que competição, muito mais paixão que dinheiro, tempos em que os craques penduravam as chuteiras sem fazer sequer o pé de meia, naqueles tempos a televisão ainda incipiente não estava nem aí para esse esporte e os outros meios de comunicação, principalmente o badaladíssimo rádio, não conseguiram capitalizar uma riqueza potencial de patrocinadores porque o mundo era outro, menos globalizado, menos mercantilizado.
Sou maluco para tentar decifrar as equipes nas transmissões pela TV. A visão periférica que me é negada pelas restrições tecnológicas, porque não tenho a amplitude do campo de disputa, procuro compensar com dupla medida: a percepção espacial que desenvolvi por ver nos estádios centenas de partidas ao longo da vida e, também, o suporte de analistas que, presentes aos jogos, me dão o que acredito ser a complementaridade territorial do jogo.
Não acho que os jogos da Copa do Mundo são enfadonhos, como acham quase todos que observam futebol sob critérios emocionais. Quem não é do ramo, e tenho lido insistentemente sobre isso, considera futebol geralmente espetáculo pouco dinâmico. A sociedade está cada vez mais condicionada à emoção, medida por sensores de audiência. Só se destacam programas que provoquem reações. Futebol é diferente. A emoção pode estar a qualquer momento diante dos telespectadores, como pode não aparecer, por mais que narradores se esforcem para transformar jogadas banais em turbilhão de dramaticidade.
A graça do futebol está muito além dos gols. A disputa tática é instigante. Para tanto é preciso dominar razoavelmente os meandros da especialidade. Aliás, não basta dominar a especialidade de saber ver um jogo de futebol. Também é indispensável que se conheçam os jogadores em campo, o estilo dos treinadores, as circunstâncias da partida. Tudo isso forma um caldo de cultura que agrega valor muitas vezes intangível ao espetáculo. E poucos estão habilitados a captar e a digerir esses elementos. Por isso, geralmente para o público menos apetrechado, futebol é um desfilar de equipes quase sem graça. Principalmente quando tanto a Seleção Brasileira quanto o time de preferência não está em campo.
Torce-se bastante no futebol brasileiro, mas entende-se pouco de futebol.
Não abro mão de assistir aos jogos de minha equipe ou da Seleção Brasileira em outro canal senão a Globo. A preferência é tática: como domina a audiência esportiva no País, preciso saber exatamente como se formata essa evangelização.
É claro que não me deixo prender pela TV Globo. Transmissões complementares me levam a outros canais. A disparidade de abordagens é tão complicada quanto tentar acertar as contas no Oriente Médio. Procuro descartar tudo que transpire absurdo e agrupar declarações que julgo sensatas. Dou uma espécie de peneirada para reforçar ou desvencilhar conclusões.
Na maioria dos casos sinto que os analistas se prendem demais ao resultado do jogo para análise do conjunto e a alguma jogada individual sem maiores consequência para definir heróis e vilões. Esquecem que futebol é coletivo e como tal as individualidades estão cada vez mais dependentes.
Assistir a futebol, portanto, é muito mais que entretenimento. Sou profissional de jornalismo durante todo o tempo. Fico pregado no sofá num ritual silencioso, prestativo, sem direito a afastar-me para tomar uma água na cozinha. Só no intervalo é que dou uma escapada, enquanto os reclames de sempre dão uma folga também aos profissionais de transmissão.
Levo a sério a condição de jornalista até mesmo nos momentos que não passam de folga para a maioria. Fui doutrinado a esse comportamento desde cedo, desde moleque no Interior de São Paulo. A diferença é que nos tempos de Guararapes e Araçatuba não dispunha de aparelho de televisão. Ouvia as transmissões no radinho de pilha. Foram anos a fio com Fiori Gigliotti, Pedro Luiz, Mário Moraes e outros papas do rádio colados no ouvido. Joguei-me aos microfones, ainda menino, por conta disso. Depois, preferi a escrita, por ser mais reflexiva e, portanto, mais recomendável a meu temperamento abrasivo.
Depois da overdose da Copa do Mundo, que começou duas semanas antes da abertura oficial e se vai esticar por pelo menos duas semanas após o jogo final, teremos uma idéia do que encontraremos nos estádios brasileiros.
Como a tendência é de que o modelo de racionalidade vai dominar a cena, provavelmente o técnico Sérgio Soares, do Santo André, concluirá que andou exagerando na dose de ofensivismo nas finais contra um Santos mais agudo que os adversários anteriores. Já o técnico Sérgio Guedes, do São Caetano, confirmará que seu antecessor exagerou mesmo no defensivismo e que está certíssimo em buscar o equilíbrio, sem tanto ao céu da marcação como prioridade, nem tanto ao mar de um ofensivismo camicase.
Leia também: São Caetano: o céu pode esperar; Ramalhão: a dois passos do inferno
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