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Esportes
Mais história para entender a
turva privatização do Ramalhão
DANIEL LIMA 04/05/2010
Vamos reproduzir amanhã neste site mais algumas peças do mosaico da história do esporte no Grande ABC, acompanhada atentamente por este jornalista. O material que introduziremos neste veículo digital dá mais sustentação a algo que chamaria de turva privatização do Ramalhão, agremiação empresarial sob controle autocrático do Saged (Santo André Gestão Empresarial e Desportiva), presidido por Ronan Maria Pinto, também comandante do Diário do Grande ABC. Ronan Maria Pinto lidera um grupo de acionistas que não chega a duas dezenas. Os mesmos acionistas que o reelegeram para três anos de mandato.
Trata-se de privatização descaradamente nociva no campo administrativo-institucional. Um processo que contraria frontalmente os objetivos delineados pelo então presidente do Esporte Clube Santo André, Jairo Livolis. Ao longo dos anos, foram anunciadas várias alternativas de sustentabilidade da equipe, todas sob controle da associação esportiva e recreativa sediada no Parque Jaçatuba.
Nem mesmo os resultados em campo (ruins ou bons, como o rebaixamento à Série B do Brasileiro, seguido do vice-campeonato da Série A Paulista) podem mascarar uma realidade nua e crua: o Ramalhão tem baixíssima representatividade diretiva e social.
Baixíssima representatividade diretiva porque não passa quase que literalmente de meia dúzia de acionistas sem raízes institucionais.
Baixíssima representatividade social porque os torcedores estão desaparecendo ao longo dos anos sob o peso do esgotamento biológico sem reposição no mesmo volume.
Os jogos finais contra o Santos provaram o quanto a torcida do Santo André virou algo quase fantasioso.
O Santo André virou uma empresa privada que se faz de instituição social cujos reflexos, no futuro, podem colocar em risco o patrimônio do Esporte Clube Santo André. A afirmativa, em forma de denúncia, leva em conta o contrato social lesivo ao clube sediado no Parque Jaçatuba.
Ao Esporte Clube Santo André sobra a maior parcela de abacaxis contratuais.
Ao Saged, em larga escala, contabilizam-se os eventuais lucros financeiros.
Ao contrário do que imaginam ideólogos de esquerda, que satanizam tudo que tenha cromossomos privados, não utilizo a expressão “privatização” para desqualificar as tratativas que culminaram com a criação do Saged.
A privatização do Santo André deveria instaurar um modelo de socialização do patrimônio material e cultural construído durante quatro décadas, mas se limita à terminologia de capitalismo selvagem.
O que mais lamento é que o Saged não se define de vez como empresa privada, com todas as vantagens e todos os riscos. Lamento mais que isso: que o Saged continue com a retaguarda jurídica do Esporte Clube Santo André, sobre o qual desovariam maiores ônus de possíveis desequilíbrios orçamentários.
Com apenas 20 das 100 cotas da privatização do Ramalhão, o EC Santo André pode assumir quase a totalidade de eventuais diarréias orçamentárias. O futebol está repleto de exemplos de gestões assemelhadas que deram com os burros nágua.
Capitalismo sem risco não é capitalismo que se deva respeitar.
Capitalismo sem pitadas de socialismo, de comprometimento com a sociedade, não é capitalismo que se deva enaltecer.
Antes de me referir diretamente às matérias reunidas no acervo da Editora Livre Mercado, publicadas originalmente na revista LivreMercado (então sob meu controle editorial) e, em seguida, pela então newsletter CapitalSocial Online, revelo uma iniciativa que tomei há duas semanas e cuja finalidade é única: contribuir para colocar ordem nesse quarto de pensão em que se transformou a operação societária entre EC Santo André e o Saged.
O que fiz afinal? Repassei aos conselheiros do Esporte Clube Santo André um dos textos disponíveis neste site (Aviso a conselheiros e acionistas: é preciso definir futuro do Ramalhão). Enviei o material através do Correios.
Não tenho a certeza de que todos estejam na lista de mais de 60 mil nomes que recebem diariamente as chamadas das matérias deste veículo de comunicação. A partir daquela mensagem, com orientação de acesso a este site, creio que os conselheiros do EC Santo André não requerem mais novas comunicações convencionais. O mundo digital encurta distância e facilita a interlocução democrática.
Sei que o material já causou reações. Há movimentos para colocar ordem no galinheiro de abusos, omissões, descasos e tudo que pode ser catalogado como excessos do Saged e de acovardamente da direção do Esporte Clube Santo André.
Esse jogo de faz-de-conta, de que nada de potencialmente grave está se desenhando, é um jogo sórdido.
Os acionistas do Saged não podem ser sacrificados como usurpadores do EC Santo André.
Os conselheiros deliberativos do EC Santo André não podem vestir a carapuça de omissos.
Pois, então, que se movimentem para clarear esse fosso profundo e escuro em que se meteram.
O presidente do Conselho Deliberativo do Santo André, Duílio Pisaneschi, já estaria mobilizando forças para, dentro da banda estreita que o autorizaria num possível enfrentamento com Ronan Maria Pinto, chamar uma assembléia extraordinária para resolver a questão.
As relações entre Duílio Pisaneschi e Ronan Maria Pinto são próximas. Ótimo, porque podem facilitar a prestação de contas de uma incorporação esportiva que já completou três anos. Não se sabe absolutamente nada sobre as finanças do Saged. Fosse o Saged empresa esportiva sem nenhum vínculo com o Esporte Clube Santo André, a opacidade poderia ser contornada. Não é o caso quando suas digitais se confundem com as digitais do Esporte Clube Santo André, um clube associativo.
Tenho o direito de ser cético quanto aos desdobramentos da iniciativa de direcionar holofotes a essas trevas. Poderia listar porção de senões que impermeabilizariam o trajeto de transparência que as circunstâncias exigem, mas fixo-me em apenas alguns pontos, provavelmente os mais cruciais.
O primeiro é que pouca gente tem coragem para opor-se mesmo que democraticamente a Ronan Maria Pinto. A fama do presidente do Santo André é um obstáculo material para muitos e subjetivo para outros. As mesuras do dirigente do Ramalhão o colocam como um gentleman, mas as articulações pessoais o instalam em outra esfera de interpretação. Ronan tem resistência em dividir qualquer poder.
O segundo é que por ser dono do principal veículo de comunicação da região, temem-se retaliações. Já ouvi de um acionista do Santo André, inconformado como o modelo centralizador do Saged, o desconforto de pronunciar-se e mobilizar parceiros. Ele disse representar o pensamento médio dos acionistas não atrelados ao presidente do Saged — uma minoria na composição da empresa esportiva.
O terceiro porque o Conselho Deliberativo do EC Santo André tem perfil etário que não favorece movimentos bruscos típicos dos jovens. A faixa de idade média dos conselheiros sugere aposentadoria compulsória, dizem representantes do próprio Conselho Deliberativo. Respira-se conformismo no ambiente deliberativo do EC Santo André. Como estabelecer ação de esclarecimentos e de cobranças sobre as consequências da privatização do Ramalhão sem que o conjunto do Conselho Deliberativo proteja eventuais individualidades inconformadas?
O mais estranho é o silêncio do ex-presidente do EC Santo André, Jairo Livolis, responsável maior pela idealização e execução do projeto de transferência do futebol para uma sociedade acionária. Jairo Livolis estaria amordaçado pela direção do Saged, dizem conselheiros deliberativos do EC Santo André. O atual presidente Celso Luiz de Almeida, parceiro de Jairo Livolis naquela iniciativa, também segue em silêncio. Os mais próximos afirmam que ele estaria esperando reação do Conselho Deliberativo. Não estaria a fim de tomar iniciativa que é da presidência do Conselho Deliberativo.
Resumo da ópera: o EC Santo André não teria institucionalidade para enfrentar o Saged.
Melhor dizendo: o EC Santo André não teria institucionalidade para enfrentar Ronan Maria Pinto.
Nesse ponto, só restaria uma alternativa: o próprio Ronan Maria Pinto abandonar o isolamento acionário e prestar contas aos conselheiros.
Mais que isso: radicalizar no bom sentido do termo e definir de vez, com o Conselho Deliberativo, os rumos do Ramalhão, separando-o definitivamente do EC Santo André.
Ainda vou escrever muito mais sobre o futuro do Ramalhão. Quando iniciei esta série, em plena fase de consagração da equipe desta temporada no Campeonato Paulista, o fiz de propósito. Esperava uma situação especialmente favorável ao Saged para me pronunciar.
A queda da equipe à Série B do Campeonato Brasileiro adiou meus planos de tocar nessa ferida exposta à responsabilidade social de quem quer o Ramalhão trafegando por estrada segura. Não pretendia parecer oportunista nas inquirições, porque de fato não o sou em circunstância alguma. Muito pelo contrário.
As matérias que postarei amanhã neste site estão cronologicamente dispostas a facilitar o entendimento dos leitores. Os títulos originais da revista LivreMercado foram modificados para adequação gráfica.
A primeira matéria, da edição de junho de 1999, sob o título original “Santo André S/A à moda Thatcher”, que virou “Santo André Sociedade Anônima adota modelo Margareth Thatcher“, foi alçada à Reportagem de Capa. O trabalho jornalístico mostra os planos do então presidente Jairo Livolis em transformar o Ramalhão em sociedade anônima, contando com milhares de acionistas. Tal qual o plano executado pela primeira-ministra britânica Margareth Thatcher na série de privatizações empreendidas na Inglaterra.
A segunda matéria, de janeiro de 2002, sob o título original “Santo André vira clube-empresa”, que virou “Finalmente o Santo André transforma-se em empresa“, antecipa iniciativa que acabou frustrada. A proposta dependia do respaldo da Administração Celso Daniel, assassinado naquele mesmo janeiro de 2002. Era a segunda tentativa da direção de Jairo Livolis encontrar saída para o futebol de Santo André não continuar ciclotímico. Os leitores poderão verificar que, naquele texto, faço breve mas importante citação a Ronan Maria Pinto, a quem não conhecia pessoalmente: ele estava liderando o grupo de empresários que adotariam o Ramalhão. O secretário municipal Klinger Souza, então vice-presidente do Santo André, pretendia beneficiar-se do sucesso programado da equipe para alavancar candidatura à Prefeitura, como afirmava sem recorrer a sofismas. Faltou combinar com os sequestradores de Celso Daniel.
A terceira matéria, da edição de dezembro de 2006, sob o título “Dinheiro e sorte, combinação ideal”, que virou “Dinheiro e sorte garantem combinação de sucesso“, analisava o lançamento oficial do projeto do Saged, ainda denominado Santo André Futebol Limitada.
Completando este ciclo de resgate da história do Santo André, reproduziremos também uma entrevista publicada na edição de janeiro de 2008 de LivreMercado. Ouvimos Jairo Livolis, sob o título “Saída providencial evitou rebaixamento”, que virou “Saída estratégica para dar drible no rebaixamento“. O material é imperdível, porque confirma o afastamento de Jairo Livolis e também de Celso Luiz de Almeida da direção do Saged, cedendo espaço para Ronan Maria Pinto e seus aliados.
Naquele momento, a história passava por ruptura que parece não ter mais volta: o Ramalhão, representado pelo Saged, divorciava-se para valer do Esporte Clube Santo André. Nada demais, convenhamos, desde que tanto o EC Santo André não sofra as consequências econômicas que o futuro pode reservar, assim como os termos contratuais da composição do Saged indenizem ativos repassados aos acionistas.
O Saged surgiu na praça como um veículo zero quilômetro, enquanto o EC Santo André ficou com grande parte das responsabilidades fiscais do passado e do futuro. Um contrato leonino ao qual o Conselho Deliberativo do Esporte Clube Santo André não pode virar as costas.
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