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Esportes
É complicado ver nossos times
ao mesmo tempo na mesma TV
DANIEL LIMA 09/02/2010
Insisto na teoria nada conformista e muito menos conservadora de que o que mais deve interessar ao São Caetano e ao Santo André na Série A do Campeonato Paulista é a Série B do Campeonato Brasileiro. Quanto mais próximas as duas equipes ficarem das quatro vagas de semifinalistas do principal campeonato regional do País, mais teremos a esperança de que, com juízo, poderão repetir o desempenho no segundo semestre. Participar das semifinais ou finais do Campeonato Paulista seria o máximo, mas o raciocínio não pode ser simplificado porque teria a contrapartida de, ao destacarem-se aos olhos de investidores do futebol, São Caetano e Santo André correriam o risco de perder peças importantes na disputa nacional subsequente.
Os sete gols que Santo André e São Caetano marcaram no final de semana fora de casa, sofrendo apenas um, restaura a confiança abalada no meio da semana com derrotas para duas das grandes equipes do País. Menos no caso do Santo André, evidentemente, que merecia melhor sorte contra o Santos de um Dorival Júnior sem constrangimento de reforçar a marcação quando percebeu que a vitória poderia ir para o brejo.
Não me lembro de Santo André e São Caetano terem obtido num mesmo final de semana, em jogos simultaneamente fora de casa, resultados tão expressivos.
O problema todo para quem pretendia assistir aos dois jogos no Sportv é que a coincidência de horário me obrigou a mudanças constantes de sintonia. Já estou ficando craque em matéria de passar de um canal para outro para ver se consigo entender dois jogos em horários que se trombam. Tão craque que cheguei à conclusão que, por mais que acredite estar reduzindo a margem de erro de substituir momentos mortos de um determinado jogo por situações vivíssimas de outro, não consigo, de fato, entender na plenitude da razão o que mais aprecio no futebol: o desenvolvimento tático dos confrontos.
Nem poderia ser diferente, convenhamos. Além das restrições espaciais da tela de televisão, a intermitente troca de canais rompe a integralidade de um jogo. A leitura tática de um jogo é algo como orgasmo, que não pode ser interrompido.
Domingo, portanto, foi um tormento e, pelo visto, de acordo com as primeiras informações, neste sábado será repetida a dose. Vou ter que me virar para captar o máximo de jogo vivo dos dois confrontos.
Prefiro a simplicidade do televisor único à multiplicidade do sãopaulino Abílio Diniz, que dispõe de infinidade de aparelhos ligados em canais diferentes em sua sala-de-estar. Provavelmente ficaria maluco com tamanho assédio. Duvido que a fórmula que aquele empresário adotou garanta avaliação dos jogos. Provavelmente ele seja adepto da multiplicação dos jogos porque não os observa com olhares críticos. Por isso prefiro ficar com um só aparelho e dois jogos entrecortados.
Por não ter o poder da ubiquidade televisa (e muito menos pessoal, evidentemente) jogo na retranca quando se trata de avaliações individuais. Enveredo com certa segurança na estrutura tática das equipes, porque é o conjunto da obra que decide. Entenda-se por conjunto da obra o somatório de vários jogos, de observações que se completam como um mosaico. Também desse conjunto derivam avaliações individuais mais notórias, como é o caso de Vanderlei no São Caetano e de Gil no Santo André.
Está mais que desenhado o perfil das duas equipes. O Santo André é uma opereta técnica de movimentação intensa no ataque com avanços no sistema defensivo. O São Caetano é o contra-regra nada convencional que deixa as digitais de sua especialidade num momento de quase silêncio de uma obra musical, quando surpreende os espectadores com manobra repentina de impacto cortante. O Santo André são as notas musicais que parecem repetitivas, mas sempre encantam. O São Caetano é a sinalização permanente de uma contra-ofensiva para a qual o adversário cada vez mais se prepara.
Traduzindo: o Santo André prima pela vocação incondicional ao ataque, tornando-se até certo grau quase irresponsável, enquanto o São Caetano é a astúcia do contragolpe planejadamente preparado ao atrair o adversário que se imagina com o controle do jogo.
Nessa contabilidade não entra o jogo com o São Paulo. O São Caetano cometeu equívoco preparatório duplo: não percebeu que os jogadores do São Paulo anunciaram nos dias que antecederam ao jogo que fariam espécie de prévia da estréia na Libertadores e foi a campo no primeiro tempo sem a competitividade que um time grande, do outro lado do gramado, merece. A dormência do São Caetano custou caro, menos como resultado numérico, mais pela recaída tática.
Por enquanto, e mesmo com as limitações já anotadas, o Santo André parece estar em estágio superior de arrumação tática. Entretanto, talvez esse parecer não seja o mais correto. Por fazer da criatividade a fonte da bateria tática, o Santo André de jogadores leves e criativos do meio de campo para a frente transmite a idéia de que se arrumou como conjunto mais rapidamente que o São Caetano. Não rejeito, entretanto, a possibilidade de estar equivocado. Afinal, por trás do jeito mais moleque de jogar, o Santo André sugere a idéia de que sofre menos para conter os adversários, o que não é uma verdade que vale para todos os jogos. É uma verdade que cai bem diante de equipes de menor poderio técnico. Já o São Caetano é mais introspectivo, mais defensivo, fica menos exposto de fato ao adversário do que a pressão contrária leva a crer. Não fosse o São Paulo no meio do caminho diria que essa afirmativa não teria fissuras.
Como estamos apenas na sétima rodada da Série A do Campeonato Paulista e, portanto, ainda restam 12 jogos para cada uma das equipes, tudo indica que Santo André e São Caetano vão entrar no Brasileiro em situação jamais vista nas temporadas anteriores, com times organizados, esculpidos taticamente, e, provavelmente, muito melhores do que o estágio que já alcançaram no Campeonato Paulista.
Só faltará, provavelmente, maior apoio do torcedor.
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