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Esportes
Dois anos em cinco décadas
DANIEL LIMA 25/09/2009
A chamada Gestão Empresarial que administra o Santo André está completando dois anos de atividades sob o controle do empresário Ronan Maria Pinto. O que temos em sustentação da estrutura esportiva está aquém do desenho do clube fundado há quase meio século nas antigas instalações do Tiro de Guerra de Santo André. O modelo romântico do passado do futebol ganhou roupagem empresarial, é verdade, mas o Santo André aprofunda-se como apêndice para a sociedade local. Até o começo dos anos 1990 o Santo André era importante para o público, mas foi desgrudando do coração da quase totalidade até atingir nos últimos anos situação de penúria afetiva.
Não é fácil para quem acompanha a história do Santo André praticamente desde a fundação chegar a essa conclusão, mas não é de hoje que sinto a necessidade de atualizar um desabafo que é antigo e já foi impresso em tantos outros textos.
Minha preocupação é que os festejos de dois anos de gerenciamento empresarial passem um atestado de grandiosidade de que o clube mudou radicalmente a ponto de oferecer perspectiva agasalhadora à esperança de perpetuar-se no seio da sociedade. O fato é que o Santo André está cada vez mais distante da comunidade. Os poucos mais de mil gatos pingados nos jogos no Estádio Bruno Daniel são a legenda mais constrangedora da esqualidez popular.
Os momentos de representatividade comunitária ficaram no passado. A agressiva linha de corte foi a descoberta do futebol e dos grandes clubes da Capital pela TV. A transfusão de recursos de anunciantes e patrocinadores desencadeou forte valorização do produto. Sem TV de massa e com baixa institucionalidade o Santo André definhou. É um desfiladeiro sem fim, como se tem observado.
A conquista da Copa do Brasil em 2004 foi um épico de exceção à regra. Ali a cidade e a região se sentiram representadas por um grupo de futebol. O Brasil inteiro, exceto os flamenguistas, vestiu a camisa do Santo André. Mas a reação popular foi egoísta e extemporânea. Tudo voltou ao desinteresse quase geral de sempre. O Santo André passa pela vida da sociedade local e regional com a sazonalidade de um Carnaval.
Como a maioria dos clubes da periferia de metrópoles, igualmente alijados do circuito de TV aberta, o Santo André restringe-se ao refluir persistente de torcedores. E não produz iniciativa consistente para mudar a situação porque não tem massa crítica interna, diretiva, para tanto. Talvez nem se a tivesse conseguiria. O confronto com os interesses econômicos em forma de audiência dos clubes mais populares da Capital está subordinado aos ditames de um capitalismo selvagem. Também pesa o modelo comportamental da sociedade.
Por mais que seja válida a máxima de que o local tem mais peso que o global nestes tempos em que a Tecnologia da Comunicação dinamita espaços territoriais, há determinados fenômenos culturais que sufocam o conceito e abrem brechas de exceções. O futebol de dísticos clubistas mais tradicionais e de estrelas de primeira grandeza é um desses casos. O Santo André e os demais clubes profissionais da região têm muito menos valor em campo e nas transmissões esportivas do que os tradicionais clubes da Capital. Audiência é a palavra chave.
O confronto regional versus global é outro quando se trata de problemas do cotidiano, como transporte, saúde, administração pública, meio ambiente, nos quais a veia local e regional é preponderante como demanda de interesse. Casos como o da explosão de uma loja de fogos de artifícios em Santo André só interessam à mídia além fronteiras do Grande ABC porque provocaram estragos visuais e materiais que enchem as audiências e vendem exemplares de jornais. É na desgraça do Grande ABC que se concentra a pauta jornalística da mídia da Capital.
Os problemas corriqueiros do cotidiano regional não despertam mobilizações externas, embora infernizem a vida da população, que encontra nos veículos de comunicação locais o respaldo de que tanto reclama. O Santo André é o cotidiano corriqueiro do Grande ABC que desaparece do radar de prioridade da mídia paulistana porque concorre diariamente com a loja de fogos de artifício que explodem na forma dos grandes clubes.
No aspecto administrativo, o Santo André que está aí na Série A do Campeonato Brasileiro não é na essência diferente demais do Santo André que há 25 anos disputava a mesma competição com o também empresário do setor de transporte coletivo Lourival Passarelli. O centralismo diretivo é uma versão do caciquismo político nas agremiações partidárias.
Tanto naquele caso quanto nesse, e também dos demais dirigentes que comandaram o Santo André, o que pesa na definição do modelo administrativo é a personalidade e o tamanho do bolso do presidente de plantão. Com Ronan Maria Pinto, homem de posses e de créditos, o Santo André chegou ao paroximismo do centralismo. Seu antecessor, Jairo Livolis, e os antecessores de Jairo Livolis, também concentravam as decisões mais importantes, mas não reuniam individualmente o poder monolítico de Ronan Maria Pinto.
A estrutura organizacional era mais receptiva a intervenções de terceiros no período em que o Santo André se voltava mais para os resultados dentro de campo. O Santo André de Ronan Maria Pinto adotou o regime de resultados financeiros em primeiro lugar, como é próprio do futebol profissional destes tempos. Cada ponto ganho num passado não muito distante custava bem menos que cada ponto ganho conquistado nestes tempos. O futebol vive números inflacionários.
Até a chegada de Ronan Maria Pinto o Santo André detinha presidencialismo mitigado. Não chegava a ser um exemplo de democracia, mas tinha decisões compartilhadas entre os mais próximos. Os então presidentes não reuniam o estofo financeiro e empresarial de Ronan Maria Pinto. Com Ronan Maria Pinto e suas circunstâncias, o debate de idéias é mais frágil, as decisões são praticamente autocráticas, embora num caso ou noutro possa parecer diferente. As marcas do presidente são mais pronunciadas.
O estilo de Ronan Maria Pinto não seria diverso do da maioria dos antecessores no Santo André, mas as circunstâncias o catapultaram a um nível que o tornou comandante supremo. Ele tem motivos de sobra para justificar as medidas que toma. Os resultados lhe são bastante favoráveis, com dois acessos consecutivos nas competições mais importantes do País. O desembarque na Série A do Campeonato Brasileiro, então, é um feito memorável.
Entretanto, sombras de inquietação com a possibilidade de rebaixamento podem ameaçar o brilho de uma gestão que se limita a vetores esportivos. O Santo André, repito, não conseguiu resgatar o sentimento patrimonialista da comunidade. É quase um estranho em seu próprio ninho.
A diferença entre o Santo André do passado e de agora é que o futebol ficou mais caro e possíveis desarranjos financeiros podem ser fatais e barulhentos como a loja de fogos de artifício.
A recíproca também é verdadeira, embora menos provável: a lucratividade jamais concretizada no passado de romantismo pode consolidar-se nestes tempos se uma sorte grande de uma pepita técnica de alto quilate for negociada. Mas também nesse ponto a probabilidade é baixa e lotérica: o Santo André empresarial vive de vendas precoces de talentos que desabrocham de vez em outros endereços. Aliás, esse é o destino de clubes médios e pequenos, correias de transmissão do mundo financeiro do futebol.
Embora a chegada de Ronan Maria Pinto ao Santo André tenha sido providencial, porque a equipe parecia exaurir-se, os dois últimos anos não devem ser festejados acriticamente. Mesmo com os resultados em campo muito acima do esperado, e, independentemente de possível rebaixamento nesta temporada, o Santo André não consegue demover desconfianças como instituição.
O divórcio da comunidade é um buraco fatal nestes tempos em que instrumentos de marketing acrescentam valores imensuráveis às marcas esportivas em forma de patrocínios, cotas das emissoras de TV e de participação nas competições.
O Santo André é um genérico do mundo do futebol profissional, como tantos outros clubes médios e pequenos, sobretudo aqueles que estão nos limites metropolitanos, muito mais vulneráveis ao domínio cultural dos grandes. Com tudo isso, possivelmente o Santo André pode até ser um negócio interessante para seus acionistas, mas jamais será um clube de verdade se não resolver desafiar todas as intempéries que o cercam.
O sucesso esportivo do Santo André dos dois últimos anos, como o sucesso esportivo em anos específicos como o 2004 da Copa do Brasil, o 1981 do Acesso à Série A do Campeonato Paulista, como o 1984 do Campeonato Brasileiro, é apenas um elo mais vistoso de uma corrente que se estende por quase cinco décadas e vive contração permanente de representatividade social. E isso é gravíssimo porque contragolpeia mortalmente o núcleo principal do futebol empresarial que vive da demanda de consumidores-torcedores.
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