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Economia
Tralhas e gala
DANIEL LIMA 21/01/2005
Um almoço ontem no Baby Beef Jardim, em Santo André, possivelmente tenha ensaiado aproximação que há muito cobro dos agentes econômicos do Grande ABC.
Presentes ali presidentes de algumas das associações comerciais da região, aquela mesa redonda de bons pratos provavelmente reserva novidades para os próximos tempos. Nada mais providencial. Principalmente se os demais se juntarem na empreitada.
A reestruturação institucional dessas entidades é temário sobre o qual me debrucei diversas vezes. Naturalmente, as avaliações provocaram descontentamento.
Primeiro porque nem todos compreendem o valor crítico de restrições. Segundo porque também não sou um exemplo acabado de sutileza, por considerar que suavidade demais nem sempre gera mudanças. Terceiro porque alguns confundiram corporação com individualidades.
Por isso, almoçando com amigos da Volkswagen do Brasil, e atento ao encontro dos dirigentes comerciais, fiz questão de lhes dizer que minha postura foi e sempre será institucional, não pessoal.
A impressão é que, depois de viver uma semana de alegria, com o resultado inédito de recomposição de parte expressiva do quadro de trabalhadores industriais com carteira assinada, teremos também novidades institucionais.
Como se já não bastasse a chegada de William Dib para conduzir o Consórcio Intermunicipal carregando na bagagem a liderança de um dos prefeitos mais bem referendados pelas urnas em outubro último no Brasil. Aliás, coincidentemente, Dib também almoçava no mesmo espaço. Dividia projetos com José Auricchio Júnior, prefeito de São Caetano.
Provavelmente o momento em que vive o Grande ABC seja a oportunidade exata para que série de medidas que chamo de institucionais se consolidem na direção de uma reviravolta.
É quase certo que jamais retomaremos o nível de desenvolvimento econômico pré-anos 90, quando detínhamos mais de 13% do PIB paulista contra 8% atuais. O mundo mudou, a Lusitana roda e a descentralização industrial é dura realidade.
Entretanto, mesmo assim, é provável que notícias agradáveis de nossa economia não se convertam em sazonalidades. Perdemos provavelmente tudo o que tínhamos de perder durante os anos 90. E foi muito, muitíssimo. Como não morremos e, a muito custo, acabamos eliminando parte da empáfia e da arrogância de quem se achava invulnerável, corremos agora na mesma raia. Sem que deliberadamente trancem pernas para sobreviver individualmente.
Sugeri aos dirigentes das associações comerciais reunidos ontem no Baby Beef Jardim provavelmente uma redundância estratégica, mas que sempre deve ser bem-vinda porque temos o péssimo hábito de desprezar a simplicidade. Disse a eles que, tudo bem, conservem suas tralhas municipalistas, de interesses locais, mas se juntem em alguns pontos de gala de questões que dizem respeito ao Grande ABC. Ou seja: reinem em casa mas dividam o trono na região.
Repasso agora a eles, leitores deste espaço, uma questão prática: engrossem o coro de reivindicação às obras completas do Rodoanel-Sul, que o governador Geraldo Alckmin e o secretário de Transportes do Estado insinuaram que encolheriam. Os 53 quilômetros que tangenciariam o Grande ABC seriam encurtados para míseros nove. Não é preciso rodar muito para perceber que a medida tem o mesmo sentido de retirar Bin Laden do esconderijo e entronizá-lo no posto de Bush. Por isso, o Estado já começou a recuar.
Por mais que os prefeitos da região tenham munição para sensibilizar um governador que sabe o quanto são importantes os 1,7 milhão de votos nos sete municípios, o reforço de representações econômicas será bem-vindo tanto na definição do Rodoanel quanto em outros temários.
Mas isso não é tudo. O próprio Rodoanel mereceria estudos mais detalhados, agora sob a ótica econômico-regional, para que se possa ajustar a dimensão de seus eventuais efeitos colaterais.
Já escrevi sobre a possibilidade de a obra opor à porção cor-de-rosa de facilitação regional a opacidade de incentivo a nova onda de evasão industrial por conta de contabilidade de custos e benefícios.
Essa equação, reduzida a alguns parágrafos e de forma subsidiária, provavelmente mais embaralha do que clareia o debate sobre o Rodoanel. Resumidamente diria que a obra tem potencialidade tanto favorável quanto contrária ao dinamismo regional.
Quem de fato poderá dirimir dúvidas são representantes da livre-iniciativa. Técnicos de empresas especializadas em logística que estão na órbita do Rodoanel Oeste e acompanham o mapa do restante da obra precisam ser requisitados pelo Consórcio de Prefeitos para esmiuçar todos os ângulos, positivos e negativos.
As associações comerciais não podem ficar à margem do Rodoanel, sob pena de derrapagem institucional.
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