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Economia
Moveleiros de São Bernardo
seguem perigosa rota do Interior
DANIEL LIMA 15/05/1987
A indústria moveleira de São Bernardo do Campo, um dos principais pólos do Brasil, resolveu apostar numa nova modalidade para resistir a esses tempos bicudos de recessão que já se manifesta claramente em forma de forte contração de vendas. Como que desafiar a ousadia do Interior de São Paulo, que tem fustigado muitas empresas locais e do ABC para transferirem áreas de produção oferecendo vantagens fiscais e terrenos quase de graça, ou mesmo de graça, o Sindicato dos Moveleiros do ABC, que congrega 220 indústrias e 30 mil trabalhadores, decidiu realizar uma feira de exposições num dos municípios mais ricos do Estado – Ribeirão Preto.
O presidente do sindicato, Vladimir Galafassi, reconhece que o tiro pode sair pela culatra e o 1o Salão de Móveis de São Bernardo do Campo em Ribeirão Preto programado para o período de 11 a 21 de junho transformar-se num centro de ataque de prefeitos interioranos à cata de novas indústrias.
Mas mesmo assim Vladimir Galafassi considera que vale a pena correr o risco. Afinal, os 30 expositores já selecionados estão na mesma situação de muitos que ficarão de fora dos apenas cinco mil metros quadrados do pavilhão reservado — precisam faturar nesse período de entressafra provocado pelo custo altíssimo do dinheiro, pela inflação que corrói os salários e também pelos salários que cada vez mais pesam nos custos de produção, já que estão submetidos a gatilhos seguidos.
Levar ao Interior do Estado – e também ao Interior do Brasil – os produtos que dão a São Bernardo o rótulo de capital do móvel (e do automóvel) é um velho sonho de Vladimir Galafassi que, finalmente, será materializado em regime experimental em Ribeirão Preto.
A expectativa dos expositores, traduzida pelo presidente do Sindicato dos Moveleiros, soa como um misto de confiança e necessidade, diante da retração no setor. Ribeirão Preto é vista como um oasis nesse momento de indefinição. Galafassi comenta alguns dados econômico-sociais de Ribeirão Preto como indicativos de que os CZ$ 5 milhões que o sindicato vai investir na infra-estrutura da feira terão retorno satisfatório. “São perto de 600 mil habitantes e uma classe média alta forte, formada de fazendeiros, de pecuaristas” – afirma.
O que os moveleiros do ABC buscam com essa feira em Ribeirão Preto é, na verdade, reconquistar parte de um mercado que lhe pertencia grandemente em décadas passadas, tempos em que, especialmente em São Bernardo, produzir móveis de alta classe, um padrão que se mantém, era menos oneroso. Mais isso foi antes da implantação da indústria automobilística, em meados de 1950. A partir daí a concorrência com automóveis fez desaparecerem muitas indústrias de móveis, porque os salários tiveram que ser aumentados em função dos parâmetros oferecidos pelas montadoras.
De carro-chefe da economia de São Bernardo, seguido de perto pelos têxteis, os moveleiros foram descendo naturalmente a ladeira da importância. É verdade que o segmento continua respeitável, mas cada vez mais se consolida a impossibilidade de competir sem a contrapartida de investimentos em novas tecnologias, em profissionais, projetos, desenhos.
O próprio presidente do Sindicato dos Moveleiros do ABC, Vladimir Galafassi, reconhece que a proposta de interiorizar o mercado é uma faca de dois gumes. Ele não arrisca dizer o que pode acontecer no futuro com Ribeirão Preto que, até enciumada com eventual sucesso dessa primeira edição, poderia fechar-se a São Bernardo. Ou que importantes indústrias do ABC resolvam atender ao chamamento constante do Interior e mudarem de endereço.
A curto prazo isso é difícil acontecer a segunda alternativa, porque implicaria em espaço de tempo para maturação física e produtiva. Galafassi lembra que o ABC tem mão-de-obra especializada no setor moveleiro enquanto o Interior tem menos quantidade e qualidade. Mas, depois de uma pausa, acaba concluindo que nem isso garante a manutenção do parque moveleiro de São Bernardo:
“Na verdade, vários empresários estão pensando em mudar-se de São Bernardo porque as montadoras representam sério problema para mão-de-obra, não só pelos salários. É que, por pagarem mais, acabam enfeitiçando o pessoal que trabalha de olho numa vaga na Volks, na Ford, na Mercedes Benz. Essa realidade tornou nossa mão-de-obra cheia de manha, de certa indolência e negligência, o que reduz bastante a produtividade. O Interior tem profissionais em menor número e menos qualificados, mas, em compensação, com custo/benefício superior” – afirma Galafassi.
A característica de produção de móveis do ABC – modelos de primeira classe, especialmente para o público de maior poder aquisitivo – já se tornou tradição aos consumidores da Capital. Quase uma centena de indústrias expõe anualmente na Bienal. Agora é Ribeirão Preto e região que conhecerão esse produto requintado, artesanal, que difere completamente de outros centros industriais de destaque no País – Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná – onde a massificação, a produção seriada, é marca registrada.
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