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Economia
Melhor impossível
DANIEL LIMA 23/06/2009
Não sei se ele deu a entrevista como pessoa jurídica ou como pessoa institucional. Se foi como pessoa jurídica e, levando-se em conta o padrão ético deste País, estará inserido na pátria da Lei de Gerson. Se falou como pessoa institucional, cometeu mais uma bobagem sem limites. Estou falando de uma liderança empresarial que garantiu como pessoa jurídica ou como pessoa institucional que o mercado imobiliário do Grande ABC é o melhor negócio do mundo.
Ou alguém duvida que um ativo que dê retorno de até 40% presumivelmente ao ano não é um negócio da China? Ainda mais no Grande ABC, onde os duros e seguidos anos da última década de 1990 mergulharam a valorização imobiliária no mesmo ritmo da queda do PIB industrial, que contaminou o PIB convencional?
A declaração de Milton Bigucci, empresário de sucesso que dirige a MBigucci de São Bernardo e também a Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC, dá sequência a outra intervenção dele mesmo, há duas ou três semanas.
Naquela ocasião ele generalizou para a economia nacional os efeitos seletivos de um concorridíssimo feirão de imóveis. “Que crise?” comemorou sem constrangimento num artigo assinado para o jornal eletrônico ABCD Maior. Agora, assegura que o negócio do imóvel no Grande ABC é o melhor do mundo, porque representa até 40% de rentabilidade anual. Nada, absolutamente nada, se rivaliza com essa projeção. Nem a Bolsa de Valores que, depois de saqueada, dá sinais de recuperação nesta temporada.
Por que me meto de novo num assunto que tem Milton Bigucci como protagonista? Não deveria me meter, acreditem, porque tenho apreço pessoal pelo empresário e pelos familiares. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Alguém que ocupa a direção de uma entidade de classe, como ele, e isso sempre é lembrado em todas as entrevistas que concede, não pode agir como propagandista de ilusões.
Responsabilidade social se tipifica além de eventuais atos individuais, corporativos e familiares, mas também em declarações públicas. Na particularidade dos negócios os empresários podem fazer o que bem entenderem. Se alguém acreditar, numa negociação particular, que é possível alcançar tamanha rentabilidade imobiliária, provavelmente a ganância é muito maior que a sensatez. Agora, falando como líder de classe, ou supostamente como líder de suposta classe, é outra história, porque induz ou pode induzir a julgamentos precipitados. E a decisões econômicas desastradas que podem comprometer uma vida inteira.
Para não dizerem que estou sofismando, reproduzo alguns trechos da matéria publicada na edição desta segunda-feira do Diário do Grande ABC, fonte de minha incursão crítica:
n No ritmo acelerado do mercado imobiliário, construtoras da região mudam um pouco de foco e apostam nos imóveis entre R$ 150 mil e R$ 250 mil — faixa de preço bastante procurada pelos consumidores, principalmente, desde o início do ano. A redução de juros para financiamentos habitacionais por parte dos bancos e a constante valorização dos imóveis são alguns dos fatores que justificam a aposta por bens nesse faixa de preços — escreveu o jornal.
n(…) Para aqueles que procuram um investimento seguro, a aquisição de imóveis entre esses valores também tem se mostrado uma boa opção, segundo Milton Bigucci, presidente da Acigabc (Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC). Ele explicou que a classe média está tendo a possibilidade de optar pela compra de um imóvel em vez de procurar aplicações financeiras. “Devido à queda de juros, as aplicações bancárias não têm dado retorno significativo, portanto, as pessoas investem nos imóveis de R$ 140 mil a R$ 250 mil, que vêm tendo valorização de até 40% na região, por exemplo. É uma tendência de mercado”, enfatizou Bigucci que também é presidente da construtora que leva seu nome, de São Bernardo, e que lançou recentemente o condomínio Camerata, em Santo André, que atende justamente essa faixa de renda — escreveu a jornalista Tatiana Marin, do Diário do Grande ABC.
Outros empresários do mercado imobiliário foram ouvidos pela repórter. Nenhum deles cometeu o sacrilégio de seguir os passos de Milton Bigucci. Aliás, fosse a informação do presidente da entidade de classe costurada com fios de realidade, o Diário do Grande ABC não poderia publicá-la sem destaque algum no meio de uma reportagem. Teria de ser alçada à manchete principal de primeira página. Quem sabe assim promoveríamos fluxo de investimentos que ultrapassasse o gueto imobiliário movido por facilidades de financiamento? É provável que o Grande ABC tenha virado o paraíso imobiliário e os grandes investidores nacionais e internacionais não se deram conta disso. Quanta incompetência, senhores!
Garanto aos leitores que se Milton Bigucci confirmar em email, em telefonema ou pessoalmente que não estava delirando nem foi incomodado em momento impróprio por terrível cefaléia e que de fato tem como provar que o filão imobiliário do Grande ABC é imbatível, correrei em busca de amigos para montar um clube de investidores. Quero que quero participar desse butim, nem que seja com pequena parcela. É claro que não abrirei mão de garantias de rentabilidade.
Talvez o presidente da Acigabc também dono da MBigucci tenha confundido as bolas e trocado oferta por rentabilidade. Nesta mesma segunda-feira, a edição da Folha de S. Paulo revela migração de lançamentos de casas e apartamentos de áreas da Capital para Santo André, São Bernardo, Guarulhos e Osasco. O estudo é da Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio), que registra residências do mercado formal. Segundo o jornal, nem mesmo o Morumbi, que costuma concentrar os novos empreendimentos, se manteve no pódio.
A matéria da Folha de S. Paulo é elucidativa, depois de ouvir especialistas em vez de propagandistas corporativos. A ampla oferta de apartamentos de alto padrão em São Paulo somada à baixa oferta de imóveis para a classe média está promovendo processo de elitização. O alto custo de vida e a dificuldade de locomoção contribuem para a migração. Em resumo: nosso Complexo de Gata Borralheira que ao longo dos anos nos meteu, entre outras situações, no rebaixamento do valor do metro quadrado imobiliário, se tornou um fator favorável à atividade. “De modo geral, enquanto a classe média procura o ABC, as classes populares se deslocam para Guarulhos. Em comum, todos buscam maior qualidade de vida, pagando menos” — escreveu a Folha de S. Paulo.
A migração em direção ao Grande ABC não é recente, como garante Luiz Paulo Pompéia, diretor da Embraesp. “Os municípios da Grande São Paulo têm as mesmas vantagens da cidade grande — shopping, supermercados, bons restaurantes — e menos problemas, como trânsito e falta de segurança” — exagerou o especialista que, certamente, precisa ser convidado a frequentar mais o Grande ABC.
O que a reportagem da Folha de São Paulo não enfatiza é o perfil dos empreendimentos imobiliários que se deslocaram para o Grande ABC, além de Guarulhos e Osasco. Mas a realidade das ruas explicita a situação. São apartamentos para a classe média baixa, nas faixas anunciadas pela reportagem do Diário do Grande ABC. Ainda bem que João Crestana, presidente do Secovi (sindicato imobiliário) conserta a situação ao dizer que o mercado já notou a demanda por produtos mais baratos. O percentual de lançamentos luxuosos de quatro dormitórios está caindo e o de dois quartos, crescendo. “É o efeito Casas Bahia: vender por menos e assim vender mais” — disse.
A baixa frequência e o número reduzido de integrantes da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC talvez não sejam por acaso. Quem acaba pagando o pato são os consumidores dos produtos imobiliários, entregues à própria sorte de encontrarem interlocutores confiáveis. Não seria a hora de Milton Bigucci, presidente da entidade, liderar um inédito movimento para criar uma espécie de cartilha ética da atividade, cobrando dos agentes do setor o cumprimento de todos os quesitos em nome de uma relação mais honesta com os consumidores?
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