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Economia
Mais desindustrialização
DANIEL LIMA 10/03/2008
O boom imobiliário na área residencial já está provocando renovação do movimento de terra de nova leva de desindustrialização no Grande ABC e na Grande São Paulo de exíguos espaços físicos para aplacar a sanha de investidores. Apesar de certo refluxo, dinheiro não falta na praça.
A notícia de que a Balas Juquinha, em Santo André, está colocando à venda 90% do terreno de que dispõe reforça a realidade da desindustrialização que nos últimos anos apenas reduziu o ritmo, mas jamais se aquietou.
A onda de retirada de indústrias da Grande São Paulo já foi maior, principalmente em direção ao Interior mais próximo, mas jamais desapareceu. O que tivemos nos últimos anos foi o mascaramento dos números. As empresas grandes e médias que ficaram, geraram mais Valor Adicionado por conta de investimentos tecnológicos e de processos. Com isso, esconderam a retirada ou o desaparecimento de exércitos de pequenas e médias indústrias. Diadema é uma exceção no Grande ABC, inclusive pelo robusto saldo de empregos formais no setor industrial.
Agora a desindustrialização está recrudescendo. O preço do metro quadrado urbano para construção habitacional favorece a desmobilização de empresas que há muito não suportam o custo da chamada deseconomia de escala da Grande São Paulo, estiolada diariamente com 800 novos veículos só na Capital.
Juntar o dinheiro da venda de imóvel e montar uma nova fábrica em endereços de custos mais contidos e de produtividade elástica é a fórmula da felicidade para quem chegou à conclusão de que sentimentalismo não combina com sobrevivência.
Nem mesmo um boquirroto como Sérgio De Nadai, que jurava fidelidade canina a Santo André, resistiu à tentação de reduzir custos. A fábrica de marmitas foi transferida para a Capital sem alarde, depois da mudança dos escritórios de administração.
Praticamente não há estudos confiáveis sobre a substituição de áreas industriais por áreas residenciais, de comércio e de serviços na Grande São Paulo, tanto no passado quanto no presente. Há, de fato, evidências factuais.
No caso da Balas Juquinha, a vizinhança industrial que o sócio do empreendimento, Giulio Sofio, observava da janela do negócio, há muito sofreu mudanças. A Villares deu lugar a uma fábrica de móveis da Casas Bahia, a Eluma cedeu espaços para concessionária de veículos e outros empreendimentos seguiram o mesmo perfil. Agora vêm os prédios de apartamentos, financiados em 30 anos, prestações que cabem no bolso de qualquer um, desde que não se perca o emprego.
Não é com outra finalidade, aliás, que a Balas Juquinha licitará quase 100 mil metros quadrados no próximo 2 de abril, conforme matéria do jornal Valor Econômico. O preço de referência do terreno é de R$ 54,5 milhões. Caberá à consultoria imobiliária Colliers Internacional do Brasil a condução da concorrência pública. Uma dinheirama para quem faturou R$ 6 milhões no ano passado.
A área de 17 mil metros quadrados da fábrica e dos escritórios não consta da licitação. Foi retirada quase em cima da hora. Mas nada impede que, também na última hora, comprador interessado, venha a ser reincorporada. Com 45 funcionários, contra 168 dos bons tempos, a Balas Juquinha não teria muitas dificuldades de se ajeitar em outro endereço. Para tanto, não faltam empresas especializadas em competitividade industrial.
Outras indústrias estão negociando na surdina áreas produtivas ociosas por conta de estruturas superdimensionadas num passado distante em que se projetavam compatibilidade sempre crescente de produção física e contingente de trabalhadores. Tecnologia e sistemas de produção reduziram a importância da metragem disponível e de mão-de-obra necessária. Vale muito mais a engenhosidade logística de manufatura dominada pela automação.
Sair de fábricas obsoletas também em busca do desenho lógico de ocupação espacial da linha de produção é outra vantagem para quem quer novo endereço não necessariamente na Grande São Paulo.
A equação parece, portanto, imperdível: vende-se a preço de ouro e no ritmo de uma demanda imobiliária enlouquecida uma planta produtiva geralmente incômoda para vizinhança residencial que chegou após a instalação da fábrica e se planeja com precisão matemática uma nova unidade em ponto geográfico que leva em conta pelo menos 200 itens de eficiência comparada. Não há concorrência que resista a uma fábrica nascida na incubadora de planejadores e sem custos agregados dentro e fora dos limites territoriais de produção.
É claro que não se toma decisão de mudança locacional de uma fábrica do dia para a noite. Mas quem disse que os donos de negócios produtivos na Grande São Paulo não alimentam há muito tempo sonhos de migração, acossados também por forças-tarefa interioranas sempre prontas a oferecer coquetel de sedução em forma de tributos, taxas, terrenos, preparação da mão-de-obra e ramais viários e rodoviários que soam como música nos ouvidos de quem não suporta mais essa metrópole desvairada?
É preciso que haja mesmo muitas vantagens competitivas para segurar um empreendimento em meio à barafunda da Grande São Paulo, sobretudo da Capital e do Grande ABC, pontos mais vulneráveis no mapa da desindustrialização desse conglomerado de 39 municípios que não consegue se organizar institucionalmente para amenizar as dores do rebaixamento da qualidade de vida.
Por isso insisto quixotescamente há tantos anos no fortalecimento da regionalidade.
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