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Economia
Instituto desvenda números da região
DANIEL LIMA 04/06/1987
Quando o Inpes anunciou, no final de 1984, que a atividade industrial do ABC Paulista ocupava menos mão-de-obra que o setor de serviços, muitos estranharam a informação. Mas a surpresa não se limitava a essa constatação, cercada de bases cientificas. Estava também na própria existência de um instituto de pesquisa voltado para acompanhar atentamente o pulsar econômico-social dessa região de dois milhões de habitantes e quarta colocada no ranking de potencial de consumo do Brasil. O Inpes, braço estatístico do Instituo Municipal de Ensino Superior de São Caetano do Sul (Imes), uma autarquia da Prefeitura, é instituição singular no País porque é a única do setor, exceto a poderosa Universidade de São Paulo, que se dedica a pesquisas sócioeconômicas e mercadológicas.
Isto significa, entre outras coisas, que o perfil do ABC pode ser traçado rapidamente pelos profissionais do Inpes, desde o que a população pensa sobre a AIDS (”Os resultados são vergonhosos” — confidencia a coordenadora do INPES, Maria do Carmo Romário) — até o número de desempregados da população economicamente ativa. Enfim, o Inpes tem peso forte em qualquer tipo de avaliação que se tente fazer do ABC. Por isso, mesmo sem se dedicar intensamente às manobras de marketing para vender seus trabalhos, diferentes empresas vão se socorrendo de números já coletados, e de estudos complementares, para gerirem negócios no ABC. Assim foi com a Casa Anglo Brasileira (Mappin), que vai instalar unidade em Santo André até o final do ano.
O Inpes faz qualquer tipo de pesquisa de campo, sempre contando com profissionais especialmente relacionados às áreas solicitadas. Até mesmo pesquisas eleitorais são elaboradas, mas os resultados são cercados de absoluto sigilo porque a instituição não quer ser confundida com similares que se dedicam a perscrutar o eleitorado e a difundir conclusões. A vitória de Janio Quadros à Prefeitura de São Paulo compõe o acervo de tendências obtidas pelo Inpes — conta um professor do Imes — mas o sabor da confirmação foi comemorado comedidamente, sem alarde público. Um dado adicional colaborou no caso para preservar o caráter apolítico do instituto: o prefeito de São Caetano, ao qual o Imes está diretamente ligado, é partidário de Janio Quadros, então no PTB, e a transformação dos dados dos computadores em notícia daria sentido que o Inpes acusaria como negativo.
A criação do Inpes foi um gesto também financeiro do Imes, diante dos sintomas cada vez maiores de defasagem da receita em relação ao custeio da escola. A alternativa de obter receita extra com o departamento de pesquisas somou-se à praticidade de reforçar o banco de dados do Imes nos cursos de pós-graduação de Administração de Empresas, Computação, Economia, Comércio Exterior e Sociologia. Essa duplicidade funcional do ponto de vista técnico-financeiro não é nem menos nem mais importante que outra — identificar a realidade do ABC. Afinal, a região simboliza todos os contrastes brasileiros, onde a riqueza divide espaço com a miséria, onde os imigrantes chegaram no início do século para gerir a agricultura e onde os migrantes aportaram especialmente a partir de meados da década de 50 para ocupar vagas geradas pelas indústrias automobilísticas e o imenso universo de empresas satélites, do setor de autopeças.
O grande indicador sócioeconômico do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano) são as oito tomadas semestrais de dados que o Inpes realizou desde o primeiro semestre de 84. Uma bateria de 310 questões fixas e atuais foi aplicada em março último, num universo de 500 pessoas cientificamente distribuídas em todas as regiões geográficas das três cidades. Os dados só não abrem as outras quatro cidades do Grande ABC (Diadema, Mauá, Ribeirão Pires, e Rio Grande da Serra) porque, confessa a coordenadora do Inpes, os recursos financeiros são limitados.
A mais recente pesquisa do Inpes atesta a credibilidade dos estudos. Afinal, em 1984, quando o Brasil ainda vivia período recessivo resultante de problemas internacionais como o aumento do preço de petróleo, a elevação dos juros da divida externa e a retração das exportações, era natural que o setor industrial oferecesse menos emprego que o segmento de serviços. Agora, quando uma nova recessão, embora inteiramente brasileira, sem o atrelamento à conjuntura internacional, está dando os primeiros alardes, é também natural que o setor de serviços sinta os golpes mais duros, atingido pela inflação, pelo custo do dinheiro financiado e pela retração do consumo interno. As indústrias médias e grandes do ABC, que absorvem número expressivo de trabalhadores, só recentemente começaram a dar indícios de queda de produção e, mesmo assim, têm a alternativa da exportação. Por isso, os dados coletados em março pelo Inpes são reais. Como os de 1984.
A marca de credibilidade, de que um instituto de pesquisa não pode prescindir, é exatamente a luta na qual o Inpes está empenhado para conquistar novos clientes num mercado em que a fama de alguns concorrentes pesa muito na hora da definição dos empresários.
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