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Economia
Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (4ª parte)
DANIEL LIMA 24/05/2010
Até agora nenhum dos compradores quer passar recibo de otário do Residencial Ventura, esse monumento de irresponsabilidade incrustado em pleno Bairro Jardim, em Santo André. Como se sabe, não há a menor segurança de que aqueles 320 apartamentos ainda não ocupados estão a salvo de explosões semelhantes às que atingiram o popular Condomínio Barão de Mauá, que há 10 anos espera por culpados.
Dos compradores do Residencial Ventura, nenhum até agora dirigiu-se sequer à unidade do Procon, em Santo André. Em última instância, trata-se de crime contra a economia popular.
Basta verificar quanto pagaram ou estão pagando por um apartamento e quanto o mercado imobiliário, entre os intermediários que sabem que ali está a possibilidade de se reviverem as explosões do Barão de Mauá, está disposto a oferecer.
Não passar recibo de otário significa que há um certo consenso de que, bobagem feita, o melhor é esperar o tempo passar.
Se a contaminação da área ocupada durante sete décadas por uma indústria química altamente agressiva não se manifestar, não haverá nenhuma consequência mais drástica. Nesse ponto, acreditam os mais ingênuos, o jornalista em questão será chamado de alarmista.
Para começo de conversa, não se trata de alarmismo, como alguns sugerem para tentar desclassificar quem não tem rabo preso com ninguém. Trata-se única e exclusivamente de responsabilidade social.
Mais ainda: independentemente de restrições ambientais documentadas pelo Semasa, órgão municipal responsável pela primeira fase de análises do terreno, o Residencial Ventura tem formato de estelionato negocial. Acredito que isso ficou evidenciado e materializado nas edições anteriores desta série. Tanto que insisto na cotação de mercado entre corretores que conhecem o problema. E a maioria conhece.
Afinal, o Residencial Ventura foi lançado comercialmente e vendido muito antes de ter as obras aprovadas pelos órgãos competentes. Não se coloca à venda um novo veículo sem que passe por extensa lista de condicionalidades regulamentares.
Quem comprou apartamento no Residencial Ventura corre o risco de se ver num veículo sem rodas, sem pneus, sem freios. E com potencial de explosão, caso a contaminação detectada pelo Semasa passe por averiguação de instituições públicas mais aparelhadas e isoladas de pressões políticas e econômicas. A Cetesb, como revelamos, não manda técnico algum às áreas contaminadas. Apenas aprova (ou não) relatórios preparados por consultorias privadas, contratadas pelos empreendedores. Uma calamidade.
Os apartamentos do Residencial Ventura dormitavam nas plantas quando forraram as páginas de jornais em forma de publicidade. Mais que isso: havia forte suspeição sobre o grau de contaminação e de periculosidade dos resíduos químicos da fábrica da Atlântis nos momentos que marcaram a propagação comercial do empreendimento.
Há mais alguns pontos que já detalhei no histórico dessa farra com a credibilidade alheia. Como o fato do consórcio responsável pelo empreendimento mentir em dezembro de 2006 ao afirmar em nota oficial que o terreno de 14 mil metros, comprado ao Grupo De Nadai por R$ 15,9 milhões, não apresentava qualquer irregularidade ambiental.
Balela pura. Já àquela época um relatório do Semasa apontava resultado investigativo em sentido contrário. Os empresários que se uniram para erguer as quatro torres de 70 mil metros quadrados de área construída não deram bola à advertência do então superintendente do Semasa. A festa estava marcada, os convites já tinham sido despachados, o buffet contratado — nada seguraria o negócio.
Repito a quem acha que me excedi em argumentação: a raposa de uma consultoria privada na área ambiental foi contratada pelo consórcio de empresas para cuidar das galinhas da viabilidade ocupacional do terreno.
A Cyrela é a maior empresa do setor imobiliário do País e Sérgio De Nadai, o comandante do Grupo De Nadai que, de vendedor, se tornou sócio do empreendimento, dá nó até em pingo dágua, como bem sabem as marmitas dos presídios que abastece desde que Mário Covas era governador do Estado. Aliás, tudo começou no governo anterior, de Luiz Antonio Fleury Filho. Era pouca coisa, mas ninguém corre um quilômetro sem correr um metro.
Deixei para os próximos dias a apresentação de novos pontos viscerais que caracterizam a jornada infeliz dos empreendedores do Residencial Ventura. Eles imaginaram que poderiam deitar e rolar na construção daqueles 320 apartamentos sem que ao menos uma voz se fizesse ouvir.
Enquanto faço uma parada técnica para alimentar o motor de combustão de provas que nocauteiam a suposta seriedade dos empreendedores do Residencial Ventura, justifico a razão de falar em otários. De fato, todos são vítimas do Residencial Ventura. Não denunciar os fatos é sim o passo seguinte à caracterização de otários. Somente malandros que passam recibos se tornam otários. Vítimas que denunciam abusos como o do Residencial Ventura só têm a ganhar. As sanções que podem ser aplicadas são latentes. A primeira é que pagaram ou vão pagar por apartamento valores que desprezaram laudos técnicos que colocaram a área sob suspeição ambiental.
Os compradores dos apartamentos, muitos dos quais agora conhecedores dos meandros do caso, estão na moita do silêncio aparentemente acovardados porque não têm ainda em mãos documentos que comprovem má-fé. Querem ver para crer. Nesse ponto, nada melhor que se juntarem numa espécie de Associação de Vítimas do Residencial Ventura e convocarem quem bem entenderem para prestar informações e contas. Este jornalista está à disposição, recheadíssimo de prova. E a prova principal, como se outras pudessem ser adulteradas, é que o lançamento comercial com a definição de preços contratualmente assumidos pelos compradores infringiu responsabilidades de transparência sobre o produto negociado.
Aponto pelo menos 10 nomes que obrigatoriamente teriam de estar relacionados entre os depoentes. A lista começa com Sérgio De Nadai e Ubirajara Freitas, representantes do Grupo De Nadai e da Cyrella. Mesmo ouvindo recomendações e tendo às mãos ressalvas do então superintendente do Semasa, eles decidiram colocar o empreendimento à venda.
O que não podem os proprietários de apartamentos do Residencial Ventura é continuar acreditando em Papai Noel. Houve maracutaia da grossa. Uso constrangido essa expressão. Maracutaia da grossa pode ser muito forte, acredito que seja, mas, juro, não encontrei nada melhor para definir um enredo de realidades sobre as quais tenho me dedicado com elegância, mas sem fraquejar.
Se alguém vender a ideia de que nada há de irregular no Residencial Ventura porque nada tem sido publicado em outros jornais, o mínimo que os compradores de apartamentos têm a fazer é duvidarem.
Pensem bem no quanto os empreendedores investiram em publicidade à comercialização dos imóveis. Foi uma enxurrada de dinheiro. Pensem também no quanto continuam investindo em novos negócios no Grande ABC. São novas enxurradas de dinheiro.
Dinheiro demais de um mesmo setor na mídia tem a contrapartida de alinhamento editorial aos interesses dos anunciantes. Não se faz democracia informativa com esses vícios.
Se os grandes veículos de comunicação da Capital já se calam com o assédio financeiro dos mercadores de imóveis, imaginem aqui nesta pobre praça esvaziada publicitariamente pela desindustrialização.
A parada técnica à nova leva de provas documentais de que o Residencial Ventura é um risco para a saúde pública se encerra aqui. A próxima edição será mais abrasiva. No conjunto, esta série terá uma vantagem sobre telenovelas. A vantagem de dispensar pitada de ficção. A Província do Grande ABC se transformou na terra do vale-tudo.
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