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Economia
Décadas perdidas
DANIEL LIMA 22/08/2004
Em dezembro de 2002, na correnteza do triunfalismo social que caracterizou a eleição de um ex-metalúrgico à Presidência da República, escrevi na revista LivreMercado sobre a bobageira de transplantar para o âmbito da mobilidade social o que se cristalizara pelo corporativismo sindical e político. A vitória de Lula da Silva levou alguns sociólogos à apressada conclusão de que se efetivava a prova material de que o Brasil emergia como democracia econômica na qual o pobre de ontem se transformava em remediado de hoje que se tornaria rico amanhã.
Provei já naquela oportunidade, com fartura de dados estatísticos, que a mobilidade social no Grande ABC e no Brasil como um todo há muito esvaiu-se pelo ralo de um PIB que mal consegue acompanhar o crescimento demográfico.
No Grande ABC, por exemplo, de cada 100 trabalhadores registrados em empresas sediadas num dos sete municípios, apenas 5,57 estavam na lista de assalariados cujos contracheques registravam, em valores brutos, pelo menos R$ 4.001 de salário, isto é, acima de 20 mínimos à época. De janeiro de 1995 a dezembro de 2001, esse universo de privilegiados encolheu assustadoramente no Grande ABC: eram 60.977, ou 11,85% da massa de trabalhadores, e tombaram para 29.124, ou 5,57%. O que dava para encher duas vezes o Pacaembu foi reduzido a dois estádios Bruno Daniel.
Mais tarde, em agosto de 2003, voltei ao assunto depois de surpreendido por Reportagem de Capa de uma revista de circulação nacional, sob o título “Retratos do Brasil que dá certo”. Foram um acinte aquelas páginas de seletividade de casos de enriquecimento material. A jornalista que se meteu naquela seara provavelmente terminou o trabalho requerendo ação enérgica de psicólogos, porque lutou o tempo todo contra os fatos.
Um novo estudo, agora de acadêmicos da Unicamp em Campinas, manchete deste jornal na edição de quinta-feira e tratado com destaque por outros veículos de comunicação, não deixa margem a dúvidas: a classe média brasileira está no purgatório e os miseráveis queimam no inferno.
Os pesquisadores da Unicamp estabeleceram três divisões da classe média: superior, média e baixa. A alta classe média tem renda familiar acima de R$ 5 mil, a média classe média está na faixa entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil e a baixa classe média ganha entre R$ 1 mil e R$ 2,5 mil. As chamadas classes inferiores foram divididas em massa trabalhadora, cuja renda familiar varia de R$ 500 a R$ 1 mil, e a de trabalhadores precários ou miseráveis, que têm renda familiar abaixo de R$ 500.
O tombo entre 1981 e 2002 foi generalizado. A alta classe média encolheu de 4,37% para 4,14% da população, a média classe média caiu de 9,13% para 7,57% e a baixa classe média de 29,3% para 24,31%. Os miseráveis saltaram no período, de 30,48% para 35,93%.
Não bastasse o engessamento econômico do País, as regiões metropolitanas, territórios pagãos em estrutura constitucional que sustente políticas públicas, caminham celeremente para o desfiladeiro. A Região Metropolitana de São Paulo, detentora da maior parcela de riqueza nacional, assistiu passivamente os miseráveis que ganham menos de R$ 500 por mês saltarem de 8,59% para 19,66% da população em 21 anos. Nada surpreendente para quem acompanha a compressão de indicadores econômicos, principalmente em direção à chamada Grande São Paulo expandida, que reúne as regiões de Sorocaba, Campinas e São José dos Campos.
Como desgraça pouca é bobagem, nem mesmo o Interior de São Paulo escapou da derrocada salarial ao aumentar o efetivo de miseráveis de 16,26% para 20,50% da população. Ou seja: Capital e Interior estão tecnicamente empatados em contingente de deserdados.
Como se observa, a vitória de um ex-operário à Presidência da República estimulou a costura de retalhos teóricos de apressadinhos que tomam a parte pela maioria. Seria impossível acreditar em mobilidade social num País que nas duas últimas décadas fracassou no indicador-chefe de quaisquer estudos que se façam para conhecer nossa realidade: o PIB per capita cresceu apenas 0,3% ao ano nesse período, contra a média mundial de 1,5%.
Perdemos a corrida desenvolvimentista. Ganhamos o campeonato do desperdício de oportunidades.
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