- Tamanho da fonte: A- | A+
- Envie por e-mail
- Imprimir
Economia
Coop, exceção e lição
DANIEL LIMA 11/08/2009
Não pretendo invadir a grande área nem chutar em gol de forma objetiva para destrinchar os destroços do setor comercial de pequeno porte no Grande ABC porque esse é um tema que integrará a série “Metamorfose econômica”, um dos ofícios a que tenho me dedicado nos últimos tempos neste espaço que vai se transformar em portal. Entretanto, não resisto em abordar aspectos periféricos mas nem por isso desprezíveis do caso: o esfacelamento do pequeno negócio comercial, principalmente do varejo.
Quem recorrer aos arquivos de LivreMercado saberá o quanto escrevi sobre os impactos da invasão de grandes conglomerados comerciais na região, justamente num período de retração industrial. Os bobocas de sempre ocuparam espaços nos jornais para cantarolar glórias. Gataborralheirescos como sempre, aplaudiram o paroximismo autofágico do conceito de livre mercado.
Vou me prender agora às informações que o jornal “O Estado de São Paulo” publicou ontem sobre a concentração de poder econômico das grandes redes de comércio varejista brasileiro, que atingiu no ano passado o nível mais alto desde 2003. O jornal paulistano foi abastecido por dados da Serasa Experian.
“Numa escala de 0 a 1, na qual 0 significa total (todas as lojas têm a mesma participação) e 1 significa concentração total (apenas um estabelecimento detém todo o mercado), o indicador atingiu 0,931 no ano passado, ante 0,909 em 2007. Em 2003, início da série histórica da pesquisa, o índice era de 0,896″ — escreveu o jornal.
É uma pena que o índice da Serasa Experian não fosse criado bem antes, por volta do começo dos anos 1990, quando o Grande ABC, mais que qualquer outra região no País, foi invadido por grandes redes. O impacto no pequeno negócio de comércio se deu com força destrutiva, porque associou a queda acentuada da massa salarial e de renda. Nosso pequeno negócio estava despreparado para o jogo bruto dos grandes players. O choque foi brutal.
Voltando ao Estadão, a notícia explica que para calcular os níveis de concentração, a Serasa Experian usou como base dados de faturamento líquido de 9,8 mil empresas comerciais que, juntas, faturaram R$ 268,9 bilhões no ano passado. As explicações para o crescimento da concentração recorde variam de setor para setor, explica o jornal, mas são duas as mais importantes, segundo Luiz Rabi, executivo da empresa: os movimentos de fusões e aquisições movidos por decisões estratégicas e o fluxo de crédito desigual.
“A dificuldade dos pequenos e médios varejistas em oferecer crédito em condições similares às das grandes redes os fez perder mercado nos últimos anos” – disse Rabi ao jornal. A principal vantagem dos grandes, segundo o especialista, é a possibilidade de parcelar o preço de venda a vista em até 10 ou 12 vezes sem juros, por meio de uso de cartão da própria loja, situação que os pequenos e médios não conseguem oferecer por falta de fôlego financeiro.
A reportagem do Estadão explica algo que cansei de relatar mas que não custa nada ser repetida: o crescimento da concorrência e da concentração se deu a partir de meados da década passada de forma violenta. A abertura da economia e a estabilidade pós-Plano Real viabilizaram investimentos estrangeiros no setor de distribuição, dando a partida para amplo e incisivo processo de fusões e aquisições, atingindo inicialmente o setor de supermercados.
O jornal e o especialista não disseram o que também cansei de alertar: as autoridades públicas municipais, estaduais e federais deixaram ao deus-dará esse jogo desigual de conquista do mercado, sem condicionantes que pudessem amenizar o que chamei de nordestinização do mercado varejista. Reboquei o neologismo “nordestinização” por conta do que se transformou o Grande ABC nesse período, uma realidade, por outros motivos, até então mais impactante e visível nas capitais nordestinas.
Aliás, foi de uma viagem a Fortaleza em 1995 e de incursões por áreas centrais e periféricas da Capital do Ceará que extrai a terminologia que mais tarde grudei no processo de fragilização do comércio varejista do Grande ABC. Guardarei para “Metamorfose econômica” algumas observações importantes para reforçar a sentença de esquartejamento econômico do Grande ABC nas duas últimas décadas. Apesar de toda a patifaria verbal de alguns representantes do mercado imobiliário. Gente que só se finge de morta à leitura de meus textos, mas que no fundo, no fundo, quer mesmo é me esganar.
Especificamente, me debati nesses 20 anos de jornalismo econômico no Grande ABC contra a invasão dos bárbaros do setor de supermercados. E os números da Serasa Experian evidenciam as transformações: as cinco maiores redes do setor têm cerca de 60% do mercado. Esse percentual, segundo o Estadão, é maior do que as cinco maiores redes detêm nos Estados Unidos, onde a concentração está na faixa de 30%. Na Europa, ainda segundo o jornal, os cinco maiores supermercados chegam a ter 70% ou mais do mercado. Não é o caso da Itália, onde até alguns anos havia proteção oficial para o pequeno varejo.
Também o jornal e a Serasa Experian não abordam na participação dos grandes conglomerados supermercadistas uma realidade típica de regiões metropolitanas, onde os ganhos de escala também se fazem importantes no setor: a participação de mercado ultrapassa em muito, mas muito, a média nacional de 60%. Se a média nacional é essa, e sem que a afirmação ganhe a conotação de chutometria, diria sem medo de errar que, no Grande ABC, por exemplo, essas cinco redes abarcam provavelmente dois terços dos consumidores.
Por isso que a atuação da Coop de Antonio José Monte é reverenciada na maioria das vezes silenciosamente por formadores e tomadores de opinião, porque se trata, de fato, de uma organização que simboliza mais que a resistência de um negócio regional, mas a própria definição de um modelo que poderia inspirar o rebaixamento da taxa de mortalidade dos empreendimentos de pequeno porte.
A Coop se tornou um dos 10 maiores empreendimentos supermercadistas do País partindo de uma plataforma modesta e esgueirando-se com engenharia entre os concorrentes de grande porte, a ponto de ganhar o jogo de consumidores em seu território.
Pelo menos em relação à Coop o Grande ABC não caiu na mesquinharia do desdém. Muito pelo contrário: a cooperativa de consumo ganhou tantas vezes a aprovação da sociedade, em diferentes edições do Prêmio Desempenho Empresarial, que chegamos ao ponto de torná-la out concurs. Nada surpreendente de fato porque, além do comando de um especialista no setor, desses com quem qualquer 10 minutos de entrevista valem por uma vida inteira, a Coop, também por conta dessa mesma liderança, tem a sensibilidade social que se expressa tanto nos projetos assistenciais que abraça quanto intimidade com o público que frequenta os corredores de mais de duas dezenas de lojas como extensão de despensa domiciliar.
Pena que, no setor mercadista, a Coop seja praticamente uma exceção de crescimento numa área em que a quase totalidade de empreendimentos locais vive aos trancos e barrancos e com perspectivas de novos derramamentos de sangue, a julgar pela previsão do também especialista em varejo, Nelson Barrizzelli. O professor da Faculdade de Administração e Economia da USP (Universidade de São Paulo) e consultor de varejo afirmou que o mapa do varejo brasileiro vai sofrer nova e profunda modificação em breve. E agora a mão pesada vem do Poder Público. “Por incapacidade de adaptação às novas exigências da competitividade e às novas regras tributárias, 50% dos pequenos varejistas vão sumir ou ser engolidos pelos mais fortes nos próximos dois a três anos” — afirmou.
Barrizzelli só não disse que a política fiscal é do governo José Serra, socialista por convicção e, como a maioria dos gestores públicos estaduais e municipais, critica a carga tributária federal mas aperfeiçoa cada vez mais os mecanismos de arrecadação.
Mais de Economia
- Grande ABC perde para Estado
e Brasil em emprego industrial - O que o Piritubão tem a ver com o
contaminado Residencial Ventura? - Quem vai fazer alguma coisa
pela transparência imobiliária? - Grande Campinas ultrapassa o
Grande ABC no PIB de consumo - Ministério Público já investiga
escândalo da Cidade Pirelli - Um desafio aos irresponsáveis pela
construção do Residencial Ventura - Condomínio contaminado: entrega
de chaves a vítimas ou a otários? - Mercado imobiliário merece mais
atenção e respeito no Grande ABC - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (7ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (6ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (5ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (4ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (3ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (2ª parte) - Eu não tenho coragem de morar
no Residencial Ventura (1ª parte) - Ganhei uma aliada na luta contra
predadores do mercado imobiliário - Aidan Ravin vai dar habite-se ao
explosivo Residencial Ventura? - Embarque nesse trem editorial e
curta mais 17 estações históricas - Exclusivo: caímos para o quinto no
ranking de Potencial de Consumo - O que esperar de lobos que
tomam conta do galinheiro? - Uma pena que nossa economia
não tenha a vitalidade do futebol - Recuperamos 40 páginas do
nosso coração econômico - Cidade Pirelli: um encontro com
a cúpula da OAB em Santo André - Cidade Pirelli é ótima oportunidade
para OAB mostrar independência - Falta transparência na gestão do
Fundo de Desenvolvimento Urbano - Escândalo da Cidade Pirelli exige
sim devassa do Ministério Público - Falta apenas saber o tamanho
do escândalo da Cidade Pirelli - Ministério Público estaria pronto
para agir no caso Cidade Pirelli - Cidade Pirelli implode e se
torna especulação imobiliária - Grande Campinas cresce em
ritmo 39% superior ao Grande ABC - Grande ABC versus Grande
Campinas, quem está na frente? - Indústria regional paga mais que
média nacional; setor público, não - Apenas São Caetano aumenta
Índice de Participação no Estado - Como acreditar nos indicadores
do unilateral mercado imobiliário? - Vá pentear macaco!
- PIB festivo esconde problemas
- São Bernardo fora do Top 10
- Doença holandesa
- Rabeira não identificada
- Paulistas na rabeira
- Mobilidade manipulada
- Locomotiva e vagões
- Primo rico, primo pobre
- Pólo de intenções (2)
- Coop, exceção e lição
- Pólo de intenções (1)
- Bala de prata
- Abaixo da inflação
- GM é caso sério (2)
- GM é caso sério (1)
- Melhor impossível
- Boicote automotivo (2)
- Boicote automotivo (1)
- Afinal, uma boa notícia
- Torcida organizada
- Gol de placa…
- Festa esclarecedora
- Mais que números
- Presente de grego
- O que esperar do Grande ABC
nestes tempos de contração? - Ganhamos mais ricos, menos
pobres e ficamos em terceiro - Fritos e mal pagos
- Nós a superar
- Mais desindustrialização
- Sindicalismo vs. FHC
- Terreno contaminado
- Do inferno aos céus
- A pílula do dia seguinte
- Nem gêmeos, nem siameses
- Grande ABC volta a ficar
atrás do potencial mineiro - Primos ricos,
primos pobres - Fatia maior de
um bolo menor - PIB do Grande ABC cai
quase à metade desde 1970 - Com dinheiro
dos outros - Lulacá! (Decididamente?)
- É bobagem transformar
Volkswagem em vilã nacional - Volkswagen
na lanterna - Grande São Paulo segue
marcha batida de perdas - Futuro anunciado finalmente
chega como centro tecnológico - Inovação em tamanho
maior sonha com pólo - Diadema quer ficar mais
perto do oceano Atlântico - Ford lança veículo popular
e salva empregos na região - Nosso exemplo já não
é suficiente como alerta? - Reagir após o Plano Real
é questão de sobrevivência - Um extenso refluxo de
investimentos na região - Terceiro lugar de volta,
mas com tamanho menor - Futuro é cada vez
mais de plástico - Avenida Pereira Barreto
pode ser muito melhor - Cai participação regional
no total de veículos leves - Mundo pertence cada vez
mais às multinacionais - Um presente para ser bem
aproveitado pelo Grande ABC - Base econômica
reflete perdas - Nosso PIB segue ladeira
abaixo. É hora de reagir - Garimpagem no setor moveleiro
- Grande ABC sente abalos no
epicentro da crise econômica - Filas emblemáticas
- Sindicalismo vs. FHC
- Cidadania e corporativismo
- Executivo sindical
- Passado ultrapassado
- Tralhas e gala
- Sobras históricas
- Safari urbano
- Arca de Noé
- Presente de grego?
- Mais transformações
- Fla-Flu empresarial
- Desastre anunciado
- Classe média
- Imposto desumano
- Modelo superado
- Décadas perdidas
- Somos peso pesado
no setor automotivo - Triângulo das Bermudas
- Humildade ramalhina
- Indiana Jones
- Da marcenaria para a movelaria
- Exportar móveis é o que importa
- Grande ABC mais pobre,
por isso menos desigual - Nem São Caetano segue o
crescimento médio do País - Mais trovoadas no
setor automotivo - Concorrência em excesso faz mal
- Mais chumbo grosso em
nosso coração econômico - Governo federal fecha os
olhos para o Grande ABC - Pequenos negócios refletem
declínio da classe média - Parceria para um pólo de qualidade
- Nosso futuro é de plástico
- Grandes projetos e obras,
perigos de entorpecimento - Falta integração e custo
atinge a competitividade - São José, Campinas e Sorocaba
empatam com Grande ABC - Estamos perdendo mobilidade social
- Logística, eis o nome do
problemão do Grande ABC - Vamos colocar a pauta do
Rodoanel na área econômica? - Lulacá, urgente!
- Bomba! São Caetano lidera
precarização de assalariados - Diadema e Mauá revelam
semelhanças e diferenças - Exclusivo: medimos o quanto
perdemos desde o Plano Real - Por que a Grande São Paulo
perdeu tantas indústrias? - São Paulo é amostra do caos metropolitano
- Evasão está expressa no fluxo de veículos
- Veja como será o Grande
ABC por volta de 2020 - IBGE consagra nossos estudos sobre a região
- IPC, ICMS, PIB e VA: só derrota
- Quando a generalização perde
a disputa para o específico - Armadilhas da desindustrialização
- Esqueceram Marinho e
trabalhadores na festa - Já não somos uma Brastemp
- Por que paramos de crescer
e não somos mais espelho? - Montadoras são
heroínas e vilãs - Entenda o capitalismo de
terceira classe do Grande ABC - Votuporanga dá lição de quem
sabe não espera acontecer - Moveleiros planejam pool de exportação
- Como se preparar para não
repetir erros do Grande ABC? - Peão, uma ova!
- Muro de Tecnologia separa
pequenas e grandes empresas - O que está por trás de especialidades
- Tudo para demolir
o mito de cidade - Agora com a cara, coragem
e marketing de verdade - Região precisa ajustar
o ritmo à onda de mudança - Quem disse que a
VW não tem futuro? - Cidade Pirelli é megaprojeto de
R$ 200 milhões de investimentos - Quando a união vai além da
força e gera desenvolvimento - Inspiração que vem da Europa
como forma de modernização - Região aprende com os gaúchos
e decide colocar mão na massa - FEI e Cetemo reforçam parceria
de reestruturação moveleira - Moveleiros querem uma virada no jogo
- Votuporanga ensina a lição e
fortalece mercado moveleiro - Rua Jurubatuba fecha às
20h30 e abre aos domingos - Quem salva os
pequenos negócios? - Minas atropela com crescimento
do PIB muito maior que São Paulo - Escravos do Real
- IBGE confirma inchaço
de nossas periferias - Indústria de Minas Gerais
atropela Estado de São Paulo - Musa proclama vocação econômica
e mobilização empresa-comunidade - Trecho sul do Rodoanel é
assunto para pauta regional - São Caetano e Diadema têm
realidades totalmente opostas - Montadoras não podem continuar
sendo referencial de reinvidicações - Entenda porquê o governo do
estado arrecada cada vez mais - Mão-de-obra tecnológica
exige cruzada regional - A Discreta Revolução
dos Shoppings Centers - Guerras que só
atrapalham região - Novos empreendedores
desconhecem armadilhas - Economia é maior desafio
de candidatos socialistas - Pólo Petroquímico pode
receber água industrial - Esvaziamento industrial da região
compromete poderio econômico - Desaquecimento da economia
preocupa empresas paulistas - Pós-Plano Bresser tem efeitos
semelhantes ao pós-Cruzado - Tudo pronto: Petroquímica União
vai se libertar do controle estatal - Comércio vive nova fase com impactos
- Um Morumbi quase lotado para
conhecer o primeiro shopping - Anapemei é centro de formação
intelectual de empreendedores - São Caetano prepara-se
para primeiro shopping - Primeiros McDonald’s chegam no Grande ABC
- Casas Bahia festeja 35
anos com muitos planos - Escombros do Plano Cruzado são visíveis
- Mappin Shopping já prepara desembarque
- Instituto desvenda números da região
- Moveleiros sofrem pós-Plano Cruzado
- Moveleiros de São Bernardo
seguem perigosa rota do Interior

Processando ...