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Economia
Anapemei é centro de formação
intelectual de empreendedores
DANIEL LIMA 16/11/1987
Primeiro, fazer a cabeça. Depois, fazer ainda mais a cabeça. Para completar, dentro do possível, prestar apoio técnico de forma direta, com informações, e de forma indireta, com indicações de cursos especializados. Esta é a filosofia de uma estranha entidade empresarial sediada no ABC Paulista – a Anapemei, Associação Nacional de Pequenas e Médias Empresas Industriais. A performance da entidade, depois de quase 10 anos de atividade, deixa o presidente Claudio Rubens Pereira certo de que valeu a pena sair na frente na luta por melhor relacionamento entre capital e trabalho que, juntos, segundo o dirigente, devem combater a tecnoburocracia estatal.
Com mais de 300 associados, 70% na região do ABC Paulista, outra parte na Grande São Paulo e a menor parcela em Minas Gerais e Rio de Janeiro, a Anapemei é, na realidade, um centro de formação intelectual e de consultoria de micro, pequenos e médios industriais. Sua principal fonte de conquista de novos associados é a visão político-social da cúpula e de boa parte dos afiliados antigos. O pronto-socorro do assistencialismo tradicional de entidades congêneres é apenas apêndice da Anapemei: “Aqui os empresários participam efetivamente da resolução dos problemas, não fazemos nenhum milagre” — afirma Cláudio Rubens, ex-jornalista que preferiu empreender na área de engenharia.
O orgulho de Cláudio Rubens é a independência da Anapemei. “Conseguimos tornar a entidade respeitada em todo o Brasil sem depender de benesses oficiais. Aliás, como somos contrários ao modelo concentrador do capitalismo de Estado no Brasil, e aos oligopólios, seria contra-senso bandearmos para o lado do governo” – afirma o presidente da mais antiga entidade empresarial independente instalada no Brasil.
Cláudio Rubens reconhece que a Anapemei poderia ter crescido muito mais, ter estrutura mais abrangente e sólida, mas a associação é o próprio retrato do setor que representa. É verdade que os pequenos empresários passaram a ocupar mais espaço nos últimos anos, ganharam até o confuso estatuto da microempresa, mas anda estão muito distantes do mínimo indispensável. Por isso, a formação intelectual é demorada e requer muita paciência. Cláudio Rubens traça o perfil dos representantes do segmento:
“Precisamos de 10 anos para nos aproximar do micro e do pequeno empresário, porque nos cinco primeiros anos ele se preocupa exclusivamente com a sobrevivência da família, nos cinco anos seguintes a luta é para consolidar o empreendimento e, só depois disso, está aberto para os interesses de classe. Mas mesmo assim é refratário. Desconfiado, teme servir de instrumento e de ser perseguido se manifestar pensamento, especialmente contra abusos do governo” – afirma Cláudio Rubens.
Mais que qualquer assistencialismo técnico-teórico sobre os emaranhados textos que regulam a economia e as relações trabalhistas, o que distingue a Anapemei é seu engajamento na prospecção de um relacionamento mais sadio com os trabalhadores.
A origem da Anapemei, em 1979, revela a visão da cúpula. A Anapemei surgiu a reboque de dois movimentos interdependentes e igualmente problemáticos para os pequenos e médios: o ressurgimento de greves trabalhistas, a partir de 1978, através dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo liderados por Lula, seguidas de acordos salariais com a Fiesp. Esses acordos levaram em conta apenas a realidade das grandes empresas, especialmente as montadoras de veículos, cujo peso de mão-de-obra não chega a 10% nos custos de produção, contra média de 27% a 45% nas indústrias satélites.
A Anapemei não derivou dos objetivos de formação intelectual. Filantropia e assemelhados não sensibilizam a diretoria executiva e o Conselho do Diretor. “Isso é função de entidades sociais, não empresariais” – argumenta Cláudio Rubens. Por isso a Anapemei procura especializar-se mais e mais. Tanto que 14 grupos setoriais já foram instalados para esmiuçar contratempos específicos de cada atividade.
O principal (em números de representantes) é o grupo de autopeças, seguido pelo de fundição e de máquinas. Os empresários trocam informações e conhecimentos que não resvalem em planos estratégicos individuais. Algo indispensável se a Anapemei não houvesse trabalhado feito formiguinha, anos a fio para “fazer a cabeça”, como diz Cláudio Rubens da classe.
Preocupado em continuar preservando a independência da Anapemei, esperançoso de que um dia a associação venha a integrar, de forma direta ou indireta, uma mesa de negociações em que a discussão do pacto social seja coisa séria e viável, Cláudio Rubens é contrário a qualquer insinuação de que a transformação da entidade em sindicato seria vantajosa. “Como sindicato, dentro de reformulação da legislação, teríamos direito a um único voto para eleger a direção da Fiesp?”
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