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Caso Celso Daniel
Será que Celso Daniel
aceitaria a ressurreição?
DANIEL LIMA 23/01/2002
Se a Celso Daniel fosse concedido o privilégio divino da ressurreição entre o momento em que seu corpo foi encontrado em chão de terra batida em Juquitiba e desceu à terra fresca de Santo André, será que se levantaria e voltaria ao Paço Municipal onde governou durante mais de nove anos?
Tenho muitas dúvidas sobre a decisão de Celso Daniel. Se a ele tivesse sido conferido o poder de acompanhar como uma câmara móvel todas as atitudes, ações e interlocuções daqueles que se movimentaram em torno do espólio do corpo crivado de balas covardes, certamente ele pensaria duas vezes.
O povo anônimo e muitas figurinhas carimbadas transformaram o velório em quilométricas filas de emoção e de solidariedade, mas não faltaram os oportunistas de plantão para impregnar idiossincrasias, a destilar o fel da maledicência, a multiplicar conjecturas políticas, a esquartejar seu corpo e seu legado em escabrosas subdivisões de marketing do horror que trafegaram do terreno ardiloso da política partidária e da política eleitoral à areia movediça do mercantilismo comercial.
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição sabendo que sua morte covarde foi chorada para valer por milhares de pessoas que lhe retribuíram a dedicação em tempo integral com que se lançou contra os paradoxos sociais e econômicos do Grande ABC, terra rica e terra pobre?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição sabendo que algumas almas penadas de detratores olharam-no pela última vez não com sentimento de cristãos que reconhecem a obra e perdoam as falhas, enaltecem a construção e subestimam as limitações?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição e retiraria de seu caixão as bandeiras do Corinthians, do Santo André, do Brasil e do PT se soubesse que seu legado, embora inédito na historiografia política do Grande ABC, ainda não estava completo e que só sua presença física poderia garantir avanços já tão difíceis mesmo com ele vivo?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição sabendo que, mal baixasse à terra, as conversas miúdas em decibéis e em conteúdo ganhariam formas mais abusadas e desrespeitosas como se em vez de vítima fosse o réu?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição se olhasse no horizonte e se emocionasse com o cortejo de seu corpo inerte que serpenteava as ruas e avenidas de Santo André, num espetáculo de compaixão e respeito que jamais o Grande ABC viveu em todos os tempos?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição se soubesse que a governabilidade da Santo André que liderou com fair play nos últimos anos correria risco de entrar em parafuso?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição se soubesse que ironicamente sua morte, mais que sua vida produtiva, causaria uma comoção nacional e provocaria, enfim, uma reação aparentemente consistente de medidas para aplacar a colombização do Brasil?
Será que Celso Daniel aceitaria a ressurreição?
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