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Administração Pública
PT descarta empresa de transporte
público de Diadema após 24 anos
DANIEL LIMA 28/06/2010
Não há ideologia que resista mesmo: depois de 24 anos malhando no ferro frio do transporte coletivo que acumulou montanha de prejuízos financeiros, o Partido dos Trabalhadores fez aprovar pelos vereadores de Diadema a quebra do sistema encampado em 1986 pelo então prefeito Gilson Menezes.
Aquela foi uma operação polêmica, que, então na Agência Estado, retratei em detalhes. E ganhei a antipatia do primeiro prefeito petista eleito no País, em 1982, bem como de petistas igualmente radicais que viam oponentes em todos os cantos.
Os leitores vão ter acesso àquela reportagem ao final deste texto. Busquei em meus arquivos o original que preparei para distribuição direta à redação do jornal O Estado de S. Paulo e também do Jornal da Tarde, além de centenas de veículos brasileiros que constavam da lista de clientes do Grupo Estado.
Escreveu Rodrigo Bruder no site do jornal digital (e também impresso) ABCD Maior que a ETCD estava mergulhada em dívida impagável de aproximadamente R$ 110 milhões, com receita mensal estimada em apenas R$ 2 milhões, suficiente apenas para gastos operacionais.
A privatização da ETCD ainda depende de ritual legal que, se frustrado, provocará mais avarias nas finanças do Município: possivelmente será extinta por execuções judiciais. Não faltam credores no enfileiramento provocado por mais de duas décadas de equívocos. Dizem os próprios petistas que acompanham a degringolada da ETCD que a dúvida é saber se há mais gente na fila de crédito do que na fila dos pontos de ônibus da empresa.
Ao acompanharem o texto que preparei em maio de 1987, os leitores vão atentar para a previsibilidade do caos. Mal concebida por Gilson Menezes, a ETCD já ensaiava coreografia de horrores administrativos, financeiros e operacionais. A insistência ideológica da esquerda que sempre dirigiu a Prefeitura desde a vitória de Gilson Menezes no começo dos anos 1980 um dia não resistiria ao cartesianismo orçamentário: seria melhor mesmo repassar para quem de direito, à iniciativa privada, a operacionalidade de um setor que é o calcanhar de aquiles dos gestores públicos. Sim, calcanhar de aquiles porque mesmo a livre iniciativa só se dá bem na projetada associação de rentabilidade do negócio e atendimento ao público porque em regra sacrifica a qualidade do serviço.
Transporte público é atividade altamente rentável para os donos das concessionárias porque nem sempre ou quase nunca o grau de eficiência é levado a sério. Usuários são espécies de sardinhas enlatadas. Mesmo mal dirigida, empresa de transporte rodoviário é mamão com açúcar.
Gerenciadores públicos menos teimosos que se meteram na empreitada — Celso Daniel e Maurício Soares, logo em seguida à iniciativa de Gilson Menezes, porque também petistas — voltaram atrás quando retomaram Santo André e São Bernardo em meados dos anos 1990.
Diadema demorou um bocado para chegar à conclusão que privatização e estatização não são antípodas por acaso. E que não é porque Lula da Silva se reelegeu presidente da República demonizando privatizações mal-ajambradas dos tucanos em atividades que o Estado poderia ter participação diferente (como o próprio Lula está reconstruindo em seu mandato), que deveria seguir adiante na autofágica condução do transporte público obtido à força por Gilson Menezes antes que o Muro de Berlim viesse abaixo.
O ABCD Maior foi quem melhor cobriu a retirada da Prefeitura de Diadema do controle da ETCD. Entrevistou inclusive um especialista no assunto, o economista e mestre em Administração Ramon Barazal, que não poupou a trajetória da empresa estatal: “A privatização da ETCD não é a melhor nem a pior escolha. É a única opção, em função de todo o histórico da empresa, quando há 20 anos o Município passou a ser transportador de pessoas. Mas a gestão desta empresa enveredou por um caminho do ponto de vista operacional muito ruim, com envolvimento de natureza política e ideológica” — avalia.
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