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Administração Pública
Aidan entrevistado
DANIEL LIMA 13/04/2009
Por conta do aniversário de Santo André, o prefeito Aidan Ravin ocupou páginas de jornais locais, impressos e virtuais. Não disse nada que fosse retumbante, que mexesse com as estruturas do Paço Municipal e da oposição. Melhor assim. Entretanto, deixou nas entrelinhas que vai haver novas mudanças na administração municipal.
Vazam informações sobre troca de secretários. Nada mais natural para quem montou um governo de emergência após inesperada vitória nas urnas. Nada mais lógico no mundo da política. O PT, principal adversário do PTB em Santo André, não tem muito o que criticar, depois de João Avamileno botar fogo na paiol pós-prévia de 2007, quando todo o secretariado desertou.
Observaram os leitores que nivelaram por baixo o modus operandi da administração pública em Santo André? O que se pode fazer quando está mais do que escancarada a ausência de capital social? Sem participação ativa da sociedade, o Poder Público de hoje e de ontem, e também de amanhã, deita e rola. Vivemos numa “Terra de ninguém”.
Talvez cometa o equívoco permanente de tomar como base de comparação dos prefeitos atuais e antecessores a exuberância intelectual e organizacional de Celso Daniel. Sem favor algum, Celso Daniel foi a mais esfuziante mente pública desta região, aquele que iluminou os caminhos regionais que, infelizmente, voltaram à escuridão.
Por isso, trato tanto Aidan Ravin quanto os demais com certa severidade.
Até mesmo Luiz Marinho, que, beneficiário de um grupo de servidores públicos de primeira linha que atuaram no Paço de Santo André, apresenta-se como um Celso Daniel redivivo em vários pontos, embora de estilo diferente, anda pisando no tomate da falta de foco institucional. Alguém pode me dizer, por exemplo, que tipo de gerenciamento público Luiz Marinho pretende ver consagrado em São Bernardo? Se tudo estiver sendo feito conforme o figurino desenhado por Miriam Belchior e outros assessores, a falta de comunicação é muito grave.
Voltemos a Aidan Ravin.
Preocupa-me o cenário excessivamente cor-de-rosa que o prefeito pinta para Santo André. Por exemplo: o tampão da Avenida Perimetral. Ele disse ao Repórter Diário que tem o sonho de cobrir aquela via de interligação entre o centro e vários bairros de Santo André e, também, de fazer a terceira pista de cada lado. Quem quer que seja ouvido e que tenha a cabeça no lugar sabe que a iniciativa não deveria constar jamais de obras prioritárias de uma Prefeitura de recursos escassos. Tão escassos que o próprio prefeito está em permanente guerra com os precatórios, cujo alívio mas não a salvação deverá vir do Congresso Nacional na forma de alongamento de desencaixes.
Se a Perimetral é promessa dispensável que poderá custar ao prefeito cobranças da oposição como símbolo de megalomania, a expectativa de que a instalação do AME (Ambulatório Médico de Especialidades), resolveria os graves problemas da área de saúde também poderá provocar rombos no prestígio do prefeito. Acenar com o céu quando nem o purgatório é possível no inferno de depauperação do atendimento de saúde é no mínimo afoiteza.
Não será esse presente do governador José Serra, de olhos legítimos nas eleições presidenciais do ano que vem que estancará ou minimizará grandemente a demanda por saúde numa cidade, como toda a região, estraçalhada no setor industrial ao longo de mais de uma década. Um dos pontos do incêndio das vestes sociais deu-se com a supressão de planos de saúde corporativos, principalmente nas pequenas e médias empresas, vítimas preferenciais da abertura econômica insana.
Embora seja medida pirotécnica, o prefeito Aidan Ravin acertou politicamente em cheio ao pretender entregar à vontade popular uma nova denominação para o Sabina, o parque de ciência deixado pela administração petista. De fato, de fato, Sabina é um chute naquele lugar em matéria de identidade nominativa, além de provocar enxaqueca no ex-prefeito João Avamileno porque o Tribunal de Contas do São Paulo encasquetou com o conceito de que os recursos ali aplicados não podem entrar na conta da Educação. Tanto é verdade a intransigência do TC que Aidan Ravin, que não vai cair na bobagem de fechar o parque de conhecimento e muito menos incorrer na suposta falha do antecessor, já decidiu por mudanças legais, quase semânticas, para enquadrar-se nos rigores da lei.
É claro que Aidan Ravin não vai colocar Sabina à votação popular, entre as alternativas de denominação. Correria o risco de ser derrotado, apesar do mau gosto do PT.
Outra vertente das entrevistas de Aidan Ravin trata da assessoria que não nega ter e estar recebendo de aliados paulistanos, no caso o deputado estadual Campos Machado, o prefeito Gilberto Kassab, o ex-governador Luiz Antonio Fleury e o vereador Netinho. Aidan Ravin respondeu à indagação do Repórter Diário sem qualquer constrangimento: “Eles são pessoas experientes e vão nos mostrar o que existe de bom. Parcerias para o bem da cidade são sempre positivas” — disse.
Uma resposta que causar calafrios nos conservadores, espectro do qual Aidan Ravin faz parte, quando o PT convoca “forasteiros” para cargos de comando e de assessoria. A política é extravagante na capacidade de flexibilizar conceitos. Mas nada como um dia atrás do outro para acabar com a tranqueira xenofóbica de que só quem é de Santo André (ou de qualquer outro Município da região) está preparado para servir à população. Provincianismo puro, puríssimo, quando se sabe que vivemos num território de alta incidência de migrantes e imigrantes.
Aidan Ravin também falou sobre a mudança do paisagismo de Santo André, com a troca das palmeiras imperiais de Celso Daniel, por gramados. Evidenciou o interesse de “deixar marcas”. Resta torcer, nesse ponto, para que não exagere na dose. O feitiço pode voltar-se contra o feiticeiro, dado o grau de veneração quase canônica que a imagem de Celso Daniel desperta na população de Santo André.
À Edição Especial do Diário do Grande ABC de oito de abril, Aidan disse de mais precioso que a divulgação de que o PT lhe deixara R$ 90 milhões de folga de caixa não corresponde à realidade. “A maioria dessa verba já estava carimbada, não poderíamos usar. Então, o que encontramos foram dívidas de precatórios de quase R$ 500 milhões e uma dívida com a Sabesp de quase R$ 500 milhões”.
Mais justificativas do próprio prefeito de Santo André para esquecer essa história de cobrir a Perimetral. Provavelmente Aidan Ravin tenha se inspirado na obra inacabada de Paulo Maluf na Avenida do Estado.
Já na edição de hoje, segunda-feira, o Diário do Grande ABC faz da gestão de Aidan Ravin operação Frankenstein. Explico: os enunciados de um texto supostamente analítico estão dissociados da cronologia do mandato. Há distanciamento muito grande entre a pintura de uma obra de arte dos 100 primeiros dias do prefeito de Santo André, expressa sob a bandeira simplória de uma governabilidade que teria sido atingida, e as barbeiragens cronologicamente pontuadas e que colocam a gestão sob pressão.
Para completar, ao Repórter Diário Aidan Ravin comentou o caso de financiamento irregular da campanha que o levou ao Paço Municipal, conforme denúncias de bastidores de ex-aliados. A saída lateral que encontrou é digna dos melhores momentos dos políticos mais espertos da historiografia da República: “Chegaram a citar que um dos meus assessores recebeu dinheiro em sua conta. Se aconteceu isso, eu vou ficar triste e vou querer apurar. Todo mundo na cidade viu como foi a minha campanha. Todo mundo viu na cidade o volume da campanha do PT”.
Apenas os incautos não sabem distinguir a fonte de reais preocupações eleitorais do prefeito de Santo André. Não se trata apenas de irregularidades no financiamento da campanha, lugar comum em disputas eleitorais, mas de irregularidades documentadas e testemunhadas. Situação sobre a qual alguns leitores mais açodados, para não dizer outra coisa, convocam este jornalista como agente comprobatório. Não sou delegado de polícia, promotor público nem juiz.
Estava completando este artigo quando acesso o site da revista LivreMercado, agora sob o controle do recuperador de tributos Walter dos Santos. Uma entrevista quilométrica com o prefeito Aidan Ravin numa publicação cujo dono disse alto e bom som, num dos coquetéis aos conselheiros editoriais, que jamais seria política, como se política fosse crime, não deixa de ser contraditória. Vasculhei todos os parágrafos em busca de novidades além daquilo que se publica diariamente na imprensa regional e, francamente, nada. Aidan Ravin é dono de empatia que ajuda a explicar a vitória em outubro do ano passado, mas é prolixo demais para quem tem acuidade jornalística. Deixá-lo falar o tempo todo é um convite à perda de foco da pauta. Ao dizer que Santo André perdeu nos últimos anos 50% do repasse do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), o prefeito mostra desconhecimento crasso do histórico econômico do Município. Mesmo durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso Santo André não perdeu tanto.
A série “Metamorfose econômica” é uma fonte de atualização imperdível para quem está no comando de uma Prefeitura tão importante.
Já a argumentação de LivreMercado de que Aidan Ravin é um prefeito livre de amarras administrativas porque ganhou as eleições sem partidos aliados é a negação suprema da importância do chamado capital político. Dá-se com Aidan Ravin exatamente o reverso da ilusão de ótica sugerida pelo texto. Algo semelhante ao que ocorreu com Collor de Mello, embora de desfecho até prova em contrário diferente. Sem aliados locais, Aidan Ravin teve de buscar socorro externo e costuras emergências internas. Por isso que prepara reforma do secretariado.
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